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Diário de Notícias - 30 Dez 03
Duas perguntas
Rui Moreira
Dois dias antes do Natal, um violento terramoto abalou o Sul do estado da
Califórnia. O abalo de 6,5 na escala de Richter causou alguns estragos em
edifícios históricos mas apenas três mortos. 72 horas depois, um sismo de
igual magnitude destruiu a cidade de Bam, causando pelo menos 30 mil
mortos. No Irão, como em muitos outros países em vias de desenvolvimento,
os tremores de terra causam catástrofes desta natureza. As características
da construção provocam o colapso das habitações, que se transformam em
mortíferas ratoeiras.
Portugal é um país de elevado risco sísmico, principalmente na região de
Lisboa, onde se concentra progressivamente grande parte da nossa
população. Seria bom que as autoridades e os municípios portugueses,
principalmente aqueles que se localizam em zonas mais sensíveis, não
esquecessem esta realidade.
Com alguma regularidade, ouvem-se vozes de arquitectos, engenheiros civis
e outros especialistas, alertando para a necessidade de regras muito mais
exigentes. Tem-se mesmo ignorado ou ridicularizado algumas vozes que
chamam a atenção para alterações introduzidas em edifícios na Baixa
pombalina e que podem ter afectado a sua resistência a um tremor de terra.
Não resistimos a chamar-lhes profetas da desgraça.
Temos uma enorme tradição de chorar sobre o leite derramado, e de procurar
então uma «mão criminosa» que expurgue a nossa culpa colectiva, que reside
na nossa cultura reactiva. Se houver amanhã, e Deus nos proteja disso, um
abalo desta magnitude numa qualquer cidade portuguesa, quantos ficarão
soterrados?
Nas nossas estradas continua a morrer-se de forma epidémica, por razões
gratuitas e azares estúpidos. Por muita prevenção rodoviária que se faça,
por mais que se agravem as penas, nada muda. A Polícia esconde-se para
multar os excessos de velocidade em vez de colocar radares e avisos bem
visíveis nos pontos negros das nossas estradas. As outras campanhas
obedecem a modas. Antes, era o estado dos pneus, depois foi o cinto de
segurança, agora é o uso ilegal do telemóvel.
O problema é que o tema anterior cai sempre no saco do esquecimento.
Continuamos a importar camiões antigos da Holanda, as inspecções
temporárias são apenas mais uma burocracia. As escolas de condução
limitam-se a ensinar como se arruma um carro, sem tocar no passeio nem
usar o travão de mão, entre duas árvores.
É mais fácil renovar a carta de condução do que tirar uma certidão de
nascimento. Também aqui, contudo, parece que o problema reside na nossa
cultura ou falta dela, que origina um psicodrama que não conseguimos
debelar.
O que é que faz com que o Silva, que é um cidadão exemplar, que se
preocupa com os filhos e lhes comprou camas de grades e capacetes para
andar de bicicleta, que adquiriu um alarme e grades para a marquise, que
mandou vir pela revista Unibanco um extintor para a cozinha, que se queixa
da falta de policiamento no seu bairro e deixou de ir ao futebol por causa
da violência das claques, se transforme, ao volante do seu automóvel, num
temível exterminador, onde arrisca a sua vida, onde joga a roleta russa na
companhia da sua família?
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