Dizia Fernando Pessoa, no meio de um poema sobre um
momento de grande desânimo, que estava escrevendo o
poema "no dia seguinte" - quando presumivelmente já
se sentia bem melhor, pelo menos o suficiente que é
preciso para que alguém se sente à mesa e escreva
triunfalmente sobre a sua depressão do dia anterior.
Mas logo depois, notando que o leitor se poderia
sentir defraudado por aquela falta de autenticidade
do poeta, Fernando Pessoa contra-ataca abrindo o
jogo: no dia seguinte sim, é sempre no dia seguinte,
no dia seguinte é que se escrevem os poemas sobre a
depressão do dia anterior, a paixão do dia anterior,
etc.
O cronista que publica em dia de reflexão tem o
problema contrário: escreve no dia antes. O seu
texto é lido, maioritariamente, durante o recesso da
campanha política, entre o café e o sorvete para os
miúdos, quando os vizinhos já se cumprimentam de
novo com um sorriso nos lábios, apesar de saberem
que vão votar em coisas inversas no dia seguinte.
Mas foi escrito na véspera, quando a campanha ferve
e se jogam as últimas achas retóricas desesperadas.
O cronista tenta projectar-se no dia seguinte,
imaginando-se sereno, expulsando a campanha
eleitoral do organismo. À sua volta, porém, dá-se
tudo por tudo, não se fala de mais nada, não se
pensa em mais nada. E aqui dá-se uma daquelas
grandes injustiças entre quem escreve e quem lê.
Você, leitor, já está do lado de lá, usufruindo da
tranquilidade do dia de reflexão. Mas eu estou ainda
naquele passado turbulento e controverso. Não há
autenticidade que sobreviva a esta viagem do tempo:
você já sabe mais do que eu; eu só posso tentar
fingir. As leis da física impedem o leitor de me
ajudar, explicando-me como se sente desse lado. Pior
ainda: as leis da nação impedem-me a mim de passar
informação deste passado para o presente do leitor,
para não correr o risco de lhe influenciar o sentido
de voto no seu futuro próximo (depois disso não
haveria problema, mas o jornal já foi impresso e
assim fica).
Pelas contas da data que rege o cabeçalho da
primeira página, temos então amanhã referendo. Ao
fim do dia já vamos saber se a maioria dos eleitores
concorda ou não com a despenalização da interrupção
voluntária da gravidez sob determinadas condições.
Eu já fiz o meu apelo ao voto na semana passada, e
não quero mais aborrecer ninguém com isso. Mas esta
não é a única coisa que está em jogo: vamos também
"saber" qual é o futuro do referendo propriamente
dito.
Saltando por cima do voto de amanhã, façamos uma
breve meditação sobre o papel do referendo em geral
e abstracto. Desde logo, notem que aquele verbo
saber que aparece duas vezes no parágrafo de cima é
bem diferente em cada caso. No primeiro caso, vamos
mesmo saber se "sim" ou se "não". A pergunta é feita
para diminuir interpretações. A partir da contagem
sabemos efectivamente qual é a resposta, e ninguém é
dono dela. Mas em relação ao referendo, e qual será
o seu futuro em Portugal, não vamos saber resposta
nenhuma; vamos avaliá-la, vamos interpretá-la.
Porque para além da pergunta do referendo,
sintetizada para ser "objectiva", tudo o mais
continuará sujeito à subjectividade da política, que
é o estado normal de uma comunidade.
Pensando bem, já nos vamos aproximando da razão pela
qual o referendo tem tido uma história tão
complicada em Portugal. Em princípio, todos nos
queixamos de que os governantes se afastam do povo,
que mandam e desmandam sozinhos, e até que
contrariam o sentido do voto que lhes foi confiado.
Mas quando, na prática, a decisão é devolvida por
referendo ao povo, a adesão não é famosa. Parece
que, afinal, preferimos a fluidez subjectiva da
política, com os rodriguinhos e subentendidos a que
já estamos habituados, do que a objectividade de uma
pergunta fria, preto-no-branco, que só permite duas
respostas possíveis.
Provavelmente, isto radica na história eleitoral
portuguesa. Durante a ditadura, eram as eleições que
estavam deturpadas do seu sentido. Quem votou em
Humberto Delgado rapidamente soube que o seu voto de
pouco valia. Quando finalmente se conquistou o
direito de que o nosso voto contasse, habituámo-nos
rapidamente a confiar nos resultados eleitorais,
embora não tanto nos representantes eleitos. Sabemos
por experiência que um governante eleito com
determinado programa pode subverter esse programa,
mas também sabemos que ele foi escolhido pela
maioria.
O referendo é um caso muito diferente. Para resumir,
digamos que numa eleição se escolhe, e muitas vezes
se escolhe o mal menor. Num referendo decide-se o
melhor que se pode. Claro que uma escolha é um tipo
de decisão, e que para decidir é preciso fazer
escolhas. Mas a natureza da eleição é mais próxima
da ideia de escolher (no caso, escolher
representantes) e a do referendo mais próxima da
decisão concreta.
Num referendo, os governantes afastam-se
momentaneamente da decisão e dizem-nos que a tomemos
nós. É uma oportunidade única, mas também nos ensina
algo sobre as responsabilidades das decisões e o
peso que elas têm. Talvez por isso, até que nos
habituemos vamos ouvir sempre alguém dizer que não
nos compete a nós decidir, mas a eles políticos, uma
vez que para isso foram escolhidos.
É paradoxal. Tomamos decisões a todo o momento no
nosso quotidiano, mas há algo nas decisões políticas
que nos traz desconforto. Percebemos, como dizia
Espinosa, que a política se faz para as pessoas que
realmente existem, para a nossa realidade
imperfeita, e não para um mundo ideal. Num mundo
ideal, cheio de gente ideal, não haveria política.
Nem precisaríamos de tomar decisões.
E isto é tudo o que vos pode dizer um homem do
passado. Historiador