Diário de Notícias - 13 Jan 03

A Coerência da Esquerda

João César das Neves

 

A extrema-esquerda vive uma fase paradoxal. De facto, a sua acção política, centrada em dois temas, segue uma linha inversa em cada um deles. No clássico campo económico, apesar das novas realidades, mantém a tradicional orientação restritiva, regulamentar e dirigista. Mas no campo dos costumes, onde agora entrou em força, apregoa uma atitude libertária, anárquica e des- controlada. Ouvimos esses activistas, por vezes no mesmo fôlego, exigir restrições a actividades legítimas, como a compra de acções ou contratações, enquanto intimam a liberdade total para actos criminosos, como a compra de droga ou o aborto. Saltitam assim entre o estatismo mais férreo e o individualismo mais extremo. Será incoerência?

Os ataques à lógica da esquerda são antigos, como se vê por exemplo numa das linhas mais influentes. O modelo original de Karl Marx foi acusado de infirmar da chamada «grande contradição», a que só deu solução póstuma no volume III de O Capital. Lenine sofreu críticas por fazer a revolução na Rússia agrícola e tradicional, em violação clara das teses do materialismo histórico. Estaline atingiu o máximo da incoerência no pacto germano-soviético, enquanto vários líderes posteriores tiveram de «meter o socialismo na gaveta». Mas estes casos, justificáveis no pragmatismo, são menos graves que a actual dicotomia dirigista/liberal do pós-guerra fria. Só que essa incongruência é apenas aparente.

Para compreender a situação actual, é preciso ir ao fundo da posição da Esquerda. Aquilo que sempre a caracterizou, dos antigos populistas aos modernos ecologistas, é a luta contra a opressão. O propósito é emancipar escravos, reais ou imaginários. Foi isso que levou os maçons contra a Igreja, os jacobinos contra o Antigo Regime, os republicanos contra a monarquia, os comunistas contra o capitalismo. Em todos os casos é a quebra das cadeias que os motiva.

No século XX, o grande teatro de opressão foi a empresa. O mecanismo económico, considerado tão degradante quanto a escravatura, atraiu todos os seus ataques. A luta trouxe avanços notáveis, dos sindicados às leis da concorrência, mas o veredicto último foi negativo. A empresa capitalista é afinal a grande força impulsionadora do desenvolvimento e a extrema-esquerda viu-se do lado errado da dinâmica histórica. O combate mantém-se, motivado pela infame globalização, mas a esquerda caiu na famigerada crise.

Compreendeu, porém, que se podia reinventar ao replicar a velha lógica noutra instituição, a família.. Esta é a sua novíssima linha política. Assumindo a família como a grande entidade opressora de hoje, usou contra ela as práticas de sempre. Os paralelos entre o velho combate contra a opressão patronal e o novo contra a opressão paternal são evidentes. Em vez da «luta de classes», existe o «conflito de gerações» e a «guerra dos sexos». A «ditadura do proletariado» foi substituída pelo liberdade sexual absoluta. Em lugar das soluções empresariais revolucionárias (kolkhoz e sovkhoz), defendem as uniões de facto e homossexuais. Até os resultados sangrentos se repetem, com o Gulag trocado pelas «salas de chuto», o aborto e a eutanásia.

A esquerda segue uma rígida coerência em novos campos. Esta lógica, levada às últimas consequências, destruirá a nossa vida íntima e social, como destruiu a economia na URSS. Porque a esquerda sempre pôs a coerência acima das pessoas.

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