Expresso - 12 Jan 2003

Um mundo em mudança
J. C. Espada
 

«O mundo pode estar a mudar num sentido diferente do que nos dizem.»

 

QUE o mundo está em permanente mudança é uma das poucas certezas da nossa atmosfera cultural. Mas pode bem acontecer que ele esteja a mudar num sentido totalmente diferente do que diariamente nos dizem.

Os críticos da globalização dizem-nos que os pobres estão cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos. No entanto, tudo indica que a grande novidade da última década pode ser a emergência de um novo bloco regional de países em enriquecimento: os da Ásia de Leste e do Pacífico. Em 2000, eles já contribuíam com 26% da economia mundial, contra 23,5% da América do Norte e 20% da Europa.

Nesses países, a despesa pública absorve em média menos de 20% do PIB, contra menos de 30% nos EUA e cerca de 45% na União Europeia. No entanto, entre 1989 e 2000, a UE gastou em média menos em investigação e desenvolvimento (1,97%) do que os EUA (2,5%), os quais possuem quase o dobro de cientistas e engenheiros por milhão de habitantes do que a Europa.

Entre 1980 e 2001, a parcela da Europa nas exportações mundiais diminuiu de 50,7% para 42%. Se excluirmos as exportações entre países europeus, essa parcela caiu de 21,3% para 17%. Surpreendentemente, esta quebra foi mais acentuada nos sectores de alta tecnologia: de 35,9% para 29,2%. No mesmo período, nove países asiáticos, onde não se inclui o Japão, aumentaram a sua parcela nas exportações mundiais de 12,8% para 35,6%.

Um dos factores associados a este crescimento surpreendente é o aumento da produtividade. Na última década, a produtividade daqueles países asiáticos cresceu cerca de 5,2% ao ano, contra 1,4% na Europa e 2,1% nos EUA. A grande excepção europeia foi a Irlanda, a campeã dos impostos baixos na Europa, cuja produtividade cresceu cerca de 4% ao ano desde 1993.

Outro aspecto curioso das mudanças em curso tem a ver com a religião e, em particular, o cristianismo. Na Europa, a única religião que cresce é a muçulmana, além do secularismo. No entanto, no resto do mundo, é o cristianismo que regista um crescimento extraordinário. Em 1900, havia 10 milhões de cristãos em África, cerca de 9% da população. Hoje existem 360 milhões, cerca de 46%. Na América Latina, os cristãos perfazem 480 milhões e na Ásia 313 milhões. Estes e outros dados semelhantes fazem do cristianismo a religião com mais rápido crescimento mundial.

Num artigo da cosmopolita revista de Boston, «Atlantic Monthly», o professor Philip Jenkins afirmava que «o cristianismo deixará a marca mais profunda no século XXI». E observava que, em 2005, existirão no mundo cerca de 2,6 mil milhões de cristãos, metade dos quais estarão na América Latina e em África, 17% na Ásia. Isso poderá dar lugar a mudanças inesperadas na vida religiosa da Europa através da imigração oriunda daquelas regiões. Em Inglaterra, por exemplo, a maior igreja criada desde 1861 é o londrino «International Christian Centre», fundado em 1992 por um pastor nigeriano.

Estas são apenas algumas mudanças que contrariam muitas das certezas dos dogmáticos visionários da «Mudança». Em si mesmas, elas não constituem qualquer tipo de «chave» para prever o futuro - uma actividade muito apreciada pelos visionários da «Mudança». Mas talvez constituam um bom conselho de humildade: em vez de futurologia, talvez fizéssemos melhor em prestar atenção ao mundo que nos rodeia.

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