Expresso - 25 Jan 03

Televisão e «gentlemanship»
JCEspada
«Por que razão se tornou aceitável o que ontem era condenável?»

 NA PASSADA quarta-feira decorreu na Universidade Católica, em Lisboa, uma conferência subordinada ao tema «Televisão, violência e sociedade». Iniciativa da Sociedade Científica daquela universidade, da Fundação Pró Dignidade e da Cinemateca Nacional, a conferência foi inaugurada por Sua Majestade a Rainha de Espanha e reuniu durante todo o dia distintos profissionais do cinema, da televisão e da academia.

Os oradores convergiram dominantemente num diagnóstico sombrio do panorama televisivo: consideraram que ele tende cada vez mais para baixo, com péssimas consequências na socialização dos menores, na vida familiar e cultural contemporânea.

Mas por que desce a televisão? Por que razão se tornou aceitável passar hoje na televisão o que ontem era condenável e anteontem era impensável?

Creio que, como nos recordaram Eduardo Lourenço e Manuel de Oliveira, a resposta é sobretudo cultural: porque a vulgaridade nos conteúdos e nos comportamentos deixou de ser condenável - moralmente, intelectualmente e socialmente condenável. Na verdade, estamos próximos da situação oposta: vivemos numa atmosfera cultural em que quase o único comportamento condenável é o que consiste em condenar um comportamento, especialmente condenar um comportamento por ele ser vulgar, ou baixo, ou grosseiro.

Aquele que ousa condenar um comportamento por ele ser grosseiro é imediatamente acusado de elitismo, e este é um dos poucos pecados reconhecidos como tal pela nossa atmosfera cultural; um pecado que é entendido como um inimigo da absoluta igualdade que seria característica definidora da democracia e da sociedade aberta.

É por isso apropriado recordar que um dos maiores defensores da democracia e da sociedade aberta no século XX - Sir Karl Popper - foi também um dos primeiros grandes críticos da desordem televisiva: uma honra de pioneirismo numa causa nobre que, é justo recordá-lo, Karl Popper partilhou com a dra. Maria de Jesus Barroso Soares.

Popper defendia uma ideia de democracia que caiu em desuso: a ideia de que a democracia, em vez de nivelamento por baixo, visa a generalização do acesso ao que é melhor, mais elevado, mais digno. Neste sentido, no sentido de Karl Popper, o ideal democrático é o ideal de uma aristocracia que é gradualmente alargada e tende para uma aristocracia universal.

Trata-se aqui, obviamente, de uma aristocracia de maneiras e de comportamentos, não de uma aristocracia de classe. Os ingleses encontraram a feliz expressão «gentleman» para designar esta aristocracia que é definida pelo carácter e pelo comportamento. Foi neste sentido que Edmund Burke afirmou que «um rei pode fazer um nobre, mas não um gentleman».

Esta frase só faz sentido se admitirmos que existe uma hierarquia objectiva de comportamentos: comportamentos baixos e comportamentos elevados, comportamentos vulgares e indignos de um gentleman e comportamentos nobres dignos de um gentleman.

Foi esta hierarquia, ou melhor, foi a percepção desta hierarquia que desapareceu da nossa atmosfera cultural. Este, atrevo-me a pensar, é o problema crucial da nossa atmosfera cultural e, como tal, é o problema crucial da nossa televisão.

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