Público - 12 Jan 04

A Cultura da Miséria
Por JOSÉ MANUEL FERNANDES

Uma das imagens mais permanentes da minha infância é a das crianças que, à chegada do paquete em viajava até ao Funchal, mergulhavam nas águas oleosas para apanhar as moedas que os turistas lhes atiravam, como quem atira amendoins a um macaco.

E também nunca poderei esquecer o que senti a primeira vez que entrei em Rabo de Peixe, nos Açores, então como repórter. Conhecia os bairros de lata de Lisboa, as "ilhas" do Porto e muitas outras bolsas de pobreza - mas nunca me vira rodeado por bandos de miúdos que ora pediam esmola, ora brincavam sob a "chuva" de um borrifador de desinfectante destinado a matar as nuvens de moscas que enxameavam os becos e praças.

Os anos passaram, mas as reportagens de Ana Cristina Pereira editadas ontem e hoje no PÚBLICO revelam como teimosos enclaves de miséria resistem num local com uma cultura muito idêntica à de Rabo de Peixe: Câmara de Lobos, na Madeira. Uma miséria que já não se limita ao Ilhéu, o rochedo que domina o pequeno porto piscatório e onde antes se acumulava a população, mas alastrou aos novos "bairros sociais", locais para onde os habitantes foram transferidos mas onde, dentro da casa de cada um, tudo continua como dantes. Os relatos da vida em bairros-gueto como o das Malvinas revelam uma vida feita de negligência, maus tratos, alcoolismo, promiscuidade, sujidade, toxicodependências, sobrepopulação, muitos vícios e total ausência de valores e virtudes. Pedir esmola ainda é a forma mais benigna de sobreviver - ou de lançar os filhos "na vida".

O resto é conhecido. Prostituição, pedofilia, abusos sexuais, disponibilidade para se oferecer em troca de alguns euros, procura de tais favores por parte de um turismo que, ainda que mais discreto, não terá desaparecido. E se certas autoridades locais insistem em não querer ver, a verdade é que, como dizia o coordenador da Judiciária no Funchal, "uma coisa é a realidade e outra é a realidade conhecida". E essa realidade não é conhecida porque é difícil percebê-la quando se circula velozmente nos novos túneis e luzidios viadutos da era João Jardim. Para além de que é uma realidade que poucos estarão disponíveis para conhecer apesar das crianças percorrerem em apenas meia hora, a pé, a distância até aos vistosos hotéis do Funchal - o percurso em sentido contrário é que poucos farão.

Mas o que mais impressiona nas reportagens é delas ressaltar a resistência de uma "cultura de miséria", a mesma cultura de miséria que me chocara em Rabo de Peixe. Em ambos os locais, ao longo das últimas décadas, foram investidos muitos milhões em habitação, escolas e infraestruturas, umas vezes bem gastos, outras vezes limitando-se a levar um gueto de um lugar para outro. Em ambos os locais pode-se fazer melhor. Mas em ambos os locais o principal problema não é apenas a miséria em si, mas uma forma de vida, de pensar, de se relacionar que prende aquelas comunidades a um círculo vicioso de incultura, violência, pobreza e marginalidade.

Como é que se quebra este círculo? Apenas com uma intervenção integrada que conjugue investimento público, apoio social, acção cultural e - o que é talvez decisivo - um trabalho de proximidade, de "pesca à linha", de sacrifício e capacidade de entrega e compreensão que muito dependerá de voluntários capazes de chegarem ao coração do problema: não apenas o gueto, mas o interior das suas casas. Onde tudo começa.

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