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Público - 19 Jan 04
A (In) Cultura do Volante
Por ARMANDO DE SOUSA E SILVA
Nos 13 anos que durou a guerra colonial morreram em África cerca de 9 mil
militares. No mesmo período, nas estradas portuguesas, morreu quase o
dobro deste número. São dados indesmentíveis e que provam que vivemos uma
autêntica guerra civil dentro de portas. Quanto a isso, não mantemos, é
certo, um silêncio ensurdecedor, mas uma espécie de indiferença resignada.
Muitos de nós, entre os quais me incluo, consideram que a cultura
rodoviária portuguesa é uma espécie de atavismo muito próprio dos
lusitanos. Penso mesmo que a forma de conduzir não é mais do que uma
expressão da forma de ter, de ostentar. O automóvel, para o condutor
típico português, é uma espécie de prolongamento do seu eu, uma forma de
dizer: estou aqui! O meu carro prova que estou aqui! Sou gente! Sem nos
determos em análises freudianas que nos levariam longe, penso que se está
a espalhar entre nós a perigosa crença de que tudo isto se deve ao mau
estado e má sinalização das estradas portuguesas! Mais uma vez a nossa
(má) consciência nos faz assobiar para o lado à procura da argumentação
fácil e falaciosa.
Devo lembrar que sou ainda do tempo em que as estradas portuguesas não
eram estradas: eram caminhos curvilíneos e a melhor de todas, a
(tristemente) famosa Estrada Nacional nº 1, coluna vertebral do sistema
rodoviário português, não passava de uma rua feita a paralelepípedos, com
um perfil inacreditável, sinuosa como as outras e que ligava o Porto a
Lisboa em talvez aí umas sete horas na melhor das hipóteses. Nesse tempo
os desastres eram tão espectaculares como hoje: mortos, mutilados e
estropiados eram a imagem viva de um sistema rodoviário ineficaz e de uma
condução suicida. Quarenta anos volvidos, os automóveis são mais potentes,
mas muito mais seguros, as estradas não têm qualquer comparação com os
caminhos do passado: existem por todo o país auto-estradas, itinerários
principais, itinerários complementares, estradas que sofreram tais
remodelações e arranjos que as tornaram irreconhecíveis. Mas a maioria dos
que são atropelados são-no dentro das localidades!
A sinalização, embora em alguns casos insuficiente, não tem nada a ver com
aquela que me guiou durante décadas. Isso são tretas. Justamente a falta
ou insuficiência ou o alegado mau estado das estradas portuguesas deveria
merecer-nos uma condução ainda mais prudente. Mas não é isso que acontece,
como todos sabemos...
Acontece que continuam a morrer pessoas em elevado número nas estradas
portuguesas. Demasiadas. Talvez o dobro da média europeia, ou mais (!).
Penso que é altura de nos deixarmos de dislates e de panos quentes e de
admitirmos que o problema número um somos nós, os condutores portugueses.
A verdade é que, em elevado grau, não sabemos conduzir um automóvel: não
temos noção do risco da condução, do resultado físico de um impacto a
determinada velocidade, da noção do perigo que representamos para os peões
e para outros automobilistas. Não somos um povo com formação técnica ou
científica mínima. Somos um país de "poetas", de crenças absurdas e de
sol. Essa é a verdade. O resto é diletantismo indigente. A ACAM
[Associação dos Cidadãos Automobilizados] ainda recentemente anunciou que
iria proceder à abertura de processos judiciais contra as edilidades um
pouco por todo o país. A presunção parece ser a de que as câmaras
municipais, como se sabe, uma entidade misteriosamente abstracta, têm a
culpa relativa à sinistralidade portuguesa, porque não conservam as
estradas em boas condições! Respeito a ACAM, onde certamente militam
pessoas de boa vontade e interessadas em mitigar este problema. Mas não
posso deixar de dizer que, mais uma vez, se trata do tiro errado no alvo
errado... Imagino que os presidentes de câmara nem vão dormir a pensar
nisto...
A via da formação e da educação, consensual entre nós, creio, já mostrou
as suas debilidades quanto a este problema específico português. Pouco
haverá a fazer mais neste aspecto. Contra a estupidez não há educação que
resista. Lembro aqui que os portugueses não usam o cinto por razões de
segurança. É só fazer um inquérito. Usam-no porque têm medo de ser
multados! Então, faça-se o mesmo com os condutores que conduzem com
excesso de álcool ou que conduzem rápida e perigosamente: reprima-se. Mas
a sério. É mil vezes melhor a repressão à morte de inocentes. Estes
condutores (e são mesmo muitos) não fazem a mínima ideia dos dramas
humanos que se escondem por detrás dos acidentes, e ainda menos ideia
fazem das suas reais responsabilidades nesses dramas.
Quanto à falta de uma criminalização eficiente, consequente e
proporcionada na justiça portuguesa, nem é bom falar... O automobilista
português nunca "assassina" ninguém. É apenas distraído e, quando muito,
cometeu uma imprudência. Matou, mas que diabo, o homem não quis matar.
Repreende-se, o homem paga e vai para casa. É assim mesmo, deixemo-nos de
tretas... Mas eu pergunto: de que se está à espera? De processar as
câmaras municipais? Tenhamos todos juízo, que já vai sendo tempo.
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