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Público - 28 Jan 04
Discurso Precisa-se
Por MANUEL QUEIRÓ
Em boa verdade não devemos invocar uma surpresa absoluta quando se vê
gente de relevo entregar-se a uma linguagem de "fim da pátria", como no
último fim-de-semana aconteceu com uma entrevista de peso e com editoriais
e comentários em catadupa. A opinião pública não é diferente da natureza,
também ela tem horror ao vazio. Naqueles a quem parecer desacompanhada de
sentido a prolongada série de perturbações e mudanças que agita a
sociedade portuguesa não poderão estranhar-se as manifestações de
desmoralização e perplexidade.
Tenho para mim que as declarações de um empresário de referência a
recomendar uma união com Espanha devem ser tidas como um exercício de
provocação destinado a provocar um sobressalto. Não será pois pelo seu
valor facial que elas deverão ser motivo de preocupação, mas pelo facto de
alguém com o seu peso sentir a necessidade de chocar dessa maneira. Como
se de acordar um moribundo se tratasse. Será que a consciência do país
estará mesmo em agonia?
Se o sentimento das elites portuguesas tiver correspondência com o teor
dos comentários que se publicam nos jornais, se ouvem nas rádios e vêem
nas televisões, não estaremos longe disso. Não fosse esse o panorama
diário na comunicação social e as declarações do empresário não teriam
impacto ou importância, ou talvez nem tivessem ocorrido. O derrotismo não
é dele, antes se respira todos os dias no negativismo da maioria das
análises, no predomínio noticioso da "lamúria" (na expressão do Presidente
da República), na insistência com que todos os dias se reivindica, se
reclama e se pede a um Estado que cada vez menos pode dar.
Dirão alguns que uma coisa é a comunicação social e outra o país. Triste
constatação seria essa, na era da comunicação e das democracias de
opinião. Não é hoje possível conceber o funcionamento de nenhuma sociedade
à margem da imagem que ela projecta de si mesma. O que se passa nos
"media" contamina de tal modo o real que o que se neles se passa acaba por
retratar, mais tarde ou mais cedo, o que se passa na sociedade a que se
dirige. O virtual não o é indefinidamente.
É por isso, estou em crer, que é indispensável detectar um sentido na
"cacofonia" mediática, sob pena de um desnorteio social. Não é suficiente
que a sociedade esteja a ser conduzida de acordo com um projecto, é
imperioso que este seja acompanhado de um discurso. Algo que torne
identificável a direcção em que se caminha, as metas que se procura
atingir, as razões por que se vão mudando as coisas. E esse discurso está
por definição associado ao poder, porque há-de sempre dimanar dele por
mais variadas e implícitas que sejam as formas porque é percebido. Mesmo
que só a sua contestação passe pelas malhas da comunicação, é dele que se
retira o sentido do movimento.
O pior que pode acontecer (e a impressão é que às vezes é mesmo isso que
acontece) é a oposição política não chegar a apresentar um antidiscurso
por ela própria não se sentir intimada a tal. É certo que a ausência de
projecto alternativo em Portugal pode com verdade ser assacada à
responsabilidade de um PS com óbvios problemas na sua liderança. É de
resto visível a sua permanente colagem a qualquer resistência corporativa
a mudanças e reformas, ou a toda contestação casuística que surja
espontânea e independente da sua vontade (o recente caso do túnel do
Marquês é apenas um exemplo). Mas é justamente por esse tiro ao alvo
mediático derivar da incapacidade de formular um modelo alternativo que
mais falta fará a visibilidade do projecto a que ele deveria responder.
Na ausência de um contraditório sobre o rumo geral das mudanças, restaria
então o confronto inútil e desgastante sobre a questão do dia. Com uma
duração breve, enquanto não irrompe a do dia seguinte. Não é difícil
perceber o efeito deletério que este confronto diário produz em época de
dificuldades. É justamente em tempo de privações, em que se espreita
sempre um horizonte de esperança, que mais afligem as disputas sem
sentido. É por aqui, julgo eu, que há que encontrar as razões para tantos
comentários de pessimismo e abandono.
O caminho que a maioria no Governo trilha está desde o início semeado de
riscos políticos e dificuldades evidentes, e isso serve para sublinhar a
correcção e a inevitabilidade de muitas opções. A de se apresentar unida
no primeiro confronto eleitoral, à partida o de mais hipóteses para as
oposições, é também um teste à sua solidez e convicção. Tanto mais que o
Governo já demonstrou que as corridas eleitorais não vão provocar o
reaparecimento de facilidades para conquistar o favor do voto.
Suspeita-se, com algum fundamento, que a retoma não chegará aos bolsos dos
portugueses antes das eleições europeias, o que aos seus olhos parece de
resto confirmado pela continuação das medidas duras e exigentes.
Mas também para que se aceite a continuação de sacrifícios é preciso
perceber que a mudança é de fôlego e que obedece a um projecto. É nesse
terreno que é preciso defrontar o PS, antes que ele se afunde
completamente na mera instrumentalização dos descontentamentos. Sem isso
continuaremos no confronto político duro, violento até, mas esvaziado de
propósito. Com um eleitorado empurrado para a abstenção, apenas tentado
pela radicalidade e demagogia das formações marginais, ou pela facilidade
do "cartão amarelo". A inversão deste clima exige o regresso de uma
política mais nobre, onde os portugueses possam de novo identificar os
objectivos colectivos e renovar a sua ambição.
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