| Diário de Notícias - 31 Jan 05
Inquestionável odor de decadência
João César das Neves
Uma excelente forma de avaliar uma época é
considerar as suas referências e figuras marcantes, as funções que a
cultura celebra. Os tempos imortalizaram legisladores, levantaram
estátuas a soldados, louvaram poetas. Para entender o Ocidente
actual, tão equívoco e complexo, é bom conhecer os seus ídolos.
Não os encontraremos nos sectores que empolgaram os séculos. A nossa
sociedade desconfia das antigas excelências e cultiva uma atitude de
anti-herói e contracultura. Por exemplo, deixou de admirar os
militares. Gosta de pensar que tal se deve ao repúdio moralista pela
violência e injustiça, mas não é verdade. A desilusão veio só depois
daquela Grande Guerra sem heróis, sem honra, sem glória. A lama das
trincheiras, com cadáveres e ruínas, gastou o respeito aos
guerreiros e o fascínio pela bravura.
O desprezo pelos governantes nasceu simplesmente da democracia.
Quando os ministros têm de nos explicar que devemos gostar deles,
perdem a nossa consideração. Nos agentes culturais foi, pelo
contrário, o elitismo. Artistas e filósofos esbanjaram a sua
influência ao decidirem esquecer o público e actuar para os
críticos. Só são "cultos" se criarem imagens disformes, ideias
abstrusas, música dissonante, o que os impede de serem referência
civilizacional.
A idade moderna deixou de confiar em clérigos e sacerdotes por causa
do monge exaltado e 200 anos de guerra. Após Martinho Lutero, o
Ocidente não fala de religião sem pensar em fogueiras, prisões e
tortura. Depois a era contemporânea arruinou as referências
modernas. A ciência, que apaixonou os nossos avós, perdeu o lustro
com a bomba atómica e ganhou temor pela clonagem e inteligência
artificial. A engenharia e economia, que empolgaram os nossos pais,
parecem hoje sinistras e manipuladoras.
Quer dizer que a nossa época não tem heróis e figuras marcantes?
Não, mas elas estão num meio inesperado. Somos o primeiro tempo que
só aclama actores, adula comediantes e futebolistas, revê-se em
cançonetistas e locutores. Basta seguir as conversas de café para
comprender que as personalidades marcantes hoje vêm todas do
espectáculo.
Esta orientação tem vantagens evidentes. Vivemos numa cultura que
não embarca facilmente em sonhos imperiais, fanatismos incendiários,
ideologias totalitárias. O pacifismo, optimismo, liberdade,
informalidade e a atenção à igualdade e solidariedade nascem, em boa
medida, desta opção. A filosofia dos bobos sempre teve uma sensatez
natural que contrasta com as loucuras idealistas.
Mas essa escolha traz também problemas graves. Insensivelmente, a
nossa sociedade vem descaindo para uma sabedoria de taberna e
camarim. Isto não é insulto, é mera observação. A atitude subjacente
a telenovelas, filmes, concursos, revistas, discursos de deputados e
reportagens jornalísticas glosa os antigos argumentos de botequim. A
referência civilizacional básica é a boémia.
A finalidade da vida é o prazer e o seu instrumento a ficção.
Paixão, gula e luxúria são valores de publicidade, programa de
partidos, elementos de educação. As bandeiras de campanha são
aborto, tabaco, homossexualidade, colesterol, droga. Só há uma coisa
sagrada, a sublimidade do deleite. Tudo o resto - família,
comunidade, honra, tradição, valores - é relativo, discutível,
ridicularizado.
Esta atitude sempre existiu. Nas orgias. Hoje é doutrina oficial.
Diariamente assistimos à exaltação pública do deboche por empresas,
analistas, investigadores, candidatos. Um indicador claro é que, num
tempo que opina sobre tudo e ofende sem dificuldade, um único
adjectivo está em desuso, precisamente o que sempre classificou os
meios lascivos. Pode-se chamar tudo a todos, menos "porcalhão".
O resultado é que um tempo centrado no gozo não consegue
respeitar-se a si mesmo. Por mais que nos esforcemos, não nos
livramos da sensação de corrupção que exala da vida pública. O nosso
principal problema cultural é o inquestionável odor de decadência
que, apesar do progresso e prosperidade, ressuma dos nossos hábitos.
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