Diário Digital - 11 Jan 06
VIRTUALIDADES
Há ou não dinheiro?
Mário Bettencourt Resendes*
Optimista incorrigível, tenho a expectativa de, pelo
menos, atingir os 74, 5 anos de esperança de vida que as
estatísticas mais recentes concedem, em média, ao homem
português. Ou seja, esperava gozar, durante um período
«razoável», os benefícios de uma reforma desafogada, em
função dos descontos já feitos (e a fazer...) para a
Segurança Social.
Estava eu, portanto, perante o futuro
«posto em sossego» quando começou a controvérsia sobre o
aumento da idade de reforma e as perspectivas pouco
animadoras sobre a estabilidade financeira da Segurança
Social. Por sinal, não sou o único a estar apreensivo:
conheço casos bem mais dramáticos de quem negociou uma
rescisão amigável do contrato de trabalho com base nos
pressupostos que, incluindo o tempo legal de subsídio de
desemprego, permitiam a reforma aos 60 anos. Vivem esses
agora o drama de chegarem a essa idade sem trabalho, sem
subsídio de desemprego...e sem reforma.
Não é difícil perceber que, face à
baixa produtividade dos portugueses em matéria de
«fabricar» descendência, o dinheiro para pagar reformas
tenderá a diminuir no futuro. Os números mais recentes
dizem, por exemplo, que, a não inverter-se a tendência
actual, daqui a 45 anos mais de um terço da população
terá mais de 65 anos e, de facto, não há esquema de
segurança social que aguente uma tal proporção entre
activos e reformados.
Compreende-se, por isso, que se
aumente a idade mínima de reforma e que se procure
acabar com sistemas que privilegiavam apenas uma parte
da população. E parece também inevitável que, quem pode,
passe a pagar mais.
Sendo tudo isto aceitável, conviria,
no entanto, que se percebesse, com rigor, o que nos
espera. O que causa confusão é vir o ministro das
Finanças afirmar que, no sistema actual, daqui a 10 anos
já faltarão as verbas para pagar as reformas e, de
seguida, ser desmentido por dirigentes sindicais e
alguns economistas, enquanto que outros subscrevem as
previsões do governante. E há ainda o professor Cavaco a
reclamar «um estudo aprofundado» para depois se
pronunciar.
Afinal, em que ficamos? Façam, com
exactidão, os cálculos, divulguem-nos e tomem as medidas
que se impõem. Mesmo contrariados, os portugueses
estarão disponíveis para acatar o que lhes for explicado
com honestidade e clareza. Até porque há iniciativas que
os particulares (pelo menos uma parte) podem tomar para
colmatar as brechas que o Estado parece incapaz de
preencher a prazo.
*Jornalista