Público - 17 Jan 06
A fusão de ADN humano e ovócitos de coelho
permitiria estudar doenças neurológicas
degenerativas
Uma equipa de cientistas
britânica pediu autorização para criar embriões
híbridos, transferindo informação genética de
pacientes com doenças neurológicas para ovócitos de
coelho, com o objectivo de obter células estaminais
que permitam estudar aquelas doenças. O pedido foi
entregue à Autoridade para a Fertilização e
Embriologia Humana (AFEH), numa altura em que o
Governo de Tony Blair revê as leis que regulamentam
estas experiências.
As células estaminais embrionárias são células
indiferenciadas, que podem originar células de
qualquer tecido. Por esta razão, são apontadas como
instrumentos potenciais na terapia de doenças
degenerativas - doenças em que se regista mau
funcionamento e/ou morte selectiva de um tipo de
células.
Na doença de Parkinson, por exemplo, são os
neurónios da região do cérebro onde se produz
dopamina que degeneram. A dopamina é um mensageiro
químico que transmite informação do cérebro para
centros reguladores de movimento: diminuída a
quantidade de dopamina, por degeneração de
neurónios, impossibilita-se a transmissão da
informação.
Embora exista propensão genética para estas doenças
- isto é, embora seja mais provável a doença surgir
num indivíduo com antecedentes familiares -, as
mutações que predispõem para degeneração celular não
são conhecidas.
Liderada por Chris Shaw, do King"s College de
Londres e Ian Wilmut, que clonou a Dolly, da
Universidade de Edimburgo, a equipa pretende
caracterizar os mecanismos celulares na origem
destas doenças. Para isso, precisam de modelos
genéticos adequados: utilizando os embriões para
clonar células estaminais de pacientes, poderiam
estudar como a informação genética é integrada
celularmente, para saber o que corre mal.
Os cientistas defendem que esta experiência
permitiria obter clones estaminais em dois anos -
preferível a esperar que se estabeleça o protocolo
com ovócitos humanos, estimado para daqui a dez
anos. Salientam ainda que um embrião híbrido não é
viável além das 200 células, nem seria útil em
implantes (porque seria rejeitado).
O pedido evidencia problemas na legislação
britânica: uma das possíveis interpretações da lei é
que a equipa não tem que pedir autorização para
iniciar as experiências porque, embora proibida a
implantação de clones em mulheres (o que não se
pretende fazer), não existem restrições à introdução
de ADN humano em células de outras espécies.
Um ponto a favor da equipa é ter pedido autorização
para uma ideia que não é pioneira: outra equipa
britânica transferiu já núcleos de glóbulos brancos
de humanos para ovos de rã - sem licença da AFEH.
Não se sabe ainda quando será conhecida a decisão.