Expresso
- 21 Jan 06
(In) Segurança Social?
Carlos P. da Silva
Na Suécia, o sistema de pensões incentiva
as carreiras longas através da capitalização virtual das contribuições e da
bonificação da permanência no mercado de trabalho nas idades entre os 62 e os 67
anos.
EM 1997 foi publicado o Livro Branco sobre o
equilíbrio financeiro da Segurança Social, com
especial relevo para a componente das pensões de
velhice. Com base nas projecções então feitas,
apontando para um défice de financiamento algures a
partir de 2020, aprovou-se legislação que introduziu
medidas visando a desaceleração da despesa com
pensões e que reforçou a ligação entre a duração da
carreira contributiva e o valor da primeira pensão.
A nova fórmula de cálculo da pensão passou a
considerar todos os salários da carreira e a usar
uma taxa anual de formação da pensão entre 2.30% e
2% (função da relação entre o salário efectivo e o
salário mínimo). Estabeleceu-se, no entanto, um
período de transição, até 2016, para os
beneficiários que, em 31 de Dezembro de 2001, já
tinham direitos adquiridos, os quais podem escolher
a melhor de três pensões: a) calculada com a fórmula
anterior (melhores 10 salários dos últimos 15 anos e
taxa de formação de anual de 2%), b) com a fórmula
nova, ou c) com uma combinação das duas na proporção
do tempo de serviço em cada uma delas.
Em relação às previsões, a situação agravou-se
devido, por um lado, ao aumento do desemprego (as
previsões eram entre 4% e 5% e a realidade está hoje
acima dos 7%), sobretudo do de longa duração nas
idades a partir dos 45 anos, e por outro, ao impacto
das reformas antecipadas, da falência de muitas
empresas de mão-de-obra intensiva e da
deslocalização de empresas estrangeiras.
Terão ainda contribuído para o aumento do défice
da Segurança Social medidas sociais, sem a
respectiva contrapartida de receita, a fraude nas
prestações, a evasão contributiva e a economia
paralela. É, pois, normal que o Fundo de
Estabilização da Segurança Social cujo património
excede os 6.5 mil milhões de euros tenha de ser
usado antes do prazo previsto no Livro Branco.
Que fazer, para repor o equilíbrio do Regime
Contributivo, que deve estar financeiramente
equilibrado, a longo prazo?
Primeiro, reduzir a componente de curto prazo do
défice, através de políticas, incluindo as fiscais,
de relançamento da economia e do emprego, de reforço
do combate à fraude, à evasão e ao trabalho ilegal e
de integração dos imigrantes.
Segundo, imunizar o custo da componente de défice
de longo prazo, estudando mecanismos para financiar
os acréscimos de longevidade das gerações no activo.
Na Suécia, o sistema de pensões incentiva as
carreiras longas através da capitalização virtual
das contribuições e da bonificação da permanência no
mercado de trabalho nas idades entre os 62 e os 67
anos. Além disso, integrou-se no sistema de pensões
uma componente de poupança de 2.5% dos rendimentos
do trabalhador, para esquemas complementares de
reforma regulados pelo Estado.
Terceiro, reforçar as políticas de apoio à
natalidade e ao rejuvenescimento da população, de
forma a melhorar a relação activos/reformados no
prazo de 20 anos.
Reagindo a tempo, a mensagem negra da «falência»
do Sistema de Segurança Social perde sentido.
Catedrático do
ISEG