Expresso
- 21 Jan 06
Estado: falir ou renovar?
António José Duarte
Dentro de 10 anos começarão os cortes nas
reformas
NUMA economia com grave défice de sustentabilidade
das suas finanças públicas, partilhando elevadas
despesas correntes, com agravamento do saldo
primário e sem o alcance do mesmo nível de receitas
correntes, a subida dos impostos, é do lado da
receita, uma medida impopular, que tem tanto de
facilidade na sua aplicabilidade, como de discutível
na sua eficiência. É difícil entender um orçamento
que onera brutalmente a carga fiscal das famílias e
empresas e ao mesmo tempo propõe investimentos como
o da OTA ou do TGV, que se sabe nunca conseguirão
ser rentáveis.
A subida da taxa do IVA de 19% para 21%, inibiu o
consumo privado, reproduziu diminuição de receitas
nas empresas, levando o Estado a cobrar menos IVA e
menos IRC, reduziu o nível de importações porque a
pressão da procura sobre a oferta diminui e menos
lucros nas empresas significa mais desemprego e ao
mesmo tempo um maior encargo da Segurança Social no
pagamento dos subsídios. Há muito que se sabe que na
economia portuguesa, não há jogos de somas nulas.
A arrecadação de receita fiscal depende
primariamente do nível de crescimento da economia
portuguesa. Quanto maior for o crescimento real da
economia, maior será o nível de receita apurada.
Quando em Junho o Governo decidiu aumentar o IVA
para adjudicar a receita ao défice que ele criou na
Caixa Geral de Aposentações, não percebeu que o
caminho escolhido levaria à recessão. O sinal
primário está aí. Em 2006 a economia apenas crescerá
0,8%.
Depois ainda há a subida das taxas de juro, com
um duplo impacto na economia. O financiamento do
investimento privado será mais caro logo menor, e as
famílias irão restringir ainda mais o consumo
privado pela diminuição do seu rendimento
disponível.
A adopção de uma política restritiva por parte do
Governo não se pode centrar única e exclusivamente
na questão fiscal, e é questionável se a estratégia
escolhida é a mais acertada. A criação de um
mecanismo de crédito de imposto para empresas
associado a um desconto proporcional que seria maior
quanto maior fosse o lucro declarado, sendo metade
desse crédito de imposto para aplicação em
investigação e desenvolvimento, inverteria a actual
lógica, e se ao mesmo tempo se estabelecesse uma «flat-rate»
de IRC, mais baixa que a actual, estariam criadas
condições para se gerar mais investimento, mais
emprego e mais produtividade.
Apenas a conjugação da descida das taxas de juro,
de receitas de privatização de 17 mil milhões e de
fluxos de fundos comunitários na casa dos 45 mil
milhões permitiu esconder durante 8 anos a realidade
dura da economia portuguesa.
É fácil justificarmos que quando não crescemos
tal se deve ao facto da Alemanha, França e Espanha
não crescerem. Mas e agora que ambos crescem e nós
não? Talvez seja tempo de assumir que o modelo
assente no consumo e na procura interna se esgotou e
que é necessário apostar nas exportações. O défice
continua a ser um problema, sobretudo quando se
pensa que o erro está do lado da receita e não da
despesa.
Que fique subentendido, que existem soluções
capazes de transformar o país, não sem antes assumir
transparência perante o país. Dizer-lhes que no
actual modelo o desemprego chegará aos 10% em menos
de quatro anos. Que dentro de 10 anos começarão os
cortes nas reformas para depois o Estado as deixar
de pagar.
É uma questão de escolha entre um Estado
verdadeiramente falido a prazo ou um Estado renovado
e com noção do que está a realizar. Veja-se este
Orçamento do Estado, onde o impossível está em
perceber a diferença entre receitas extraordinárias
obtidas por via da alienação patrimonial ou aumentar
o ISP para financiar esse grande erro que foram as
Scuts? Uma não fere a economia a outra atinge-a a
fundo.
A política não pode continuar a ser vista como
subsidiária da economia. É tempo de se alterar esta
visão.
antonioduarte@gmail.com
Economista