Público - 21 Jan 06
Melhor Estado
Amílcar Correia
A sustentabilidade futura da Segurança Social não
pode ser conseguida através das verbas do fundo de
estabilização, mas sim através do seu equilíbrio
anual, como terá acontecido este ano
O plano de combate à fraude e à
evasão fiscal anunciado em Abril passado pelo
Governo começa a dar os primeiros frutos. Em 2005, a
Segurança Social recuperou 42,5 por cento do total
dos seus créditos em dívida - 280 milhões de euros,
aos quais devem ser acrescentados mais 16,8 milhões
de poupanças obtidas na fiscalização de
beneficiários. Acresce que a receita obtida pela
Segurança Social, só na sequência de processos
litigiosos, aumentou cerca de 74 por cento. A
estagnação económica e o crescimento do desemprego,
com a inevitável descida do número de contribuintes
e o aumento das prestações sociais pagas pelo
Estado, não impediram que a Segurança Social
cobrasse, no total, no último ano, mais 500 milhões
de euros, um aumento de 5,1 por cento. Porquê?
O que a prática tem demonstrado recentemente é que
os níveis de incumprimento são inversamente
proporcionais à determinação do Estado em lutar
contra a fraude e a evasão. Os resultados registados
pela Segurança Social só podem, pois, ser atribuídos
à estratégia que o actual ministro do Trabalho e da
Solidariedade Social, Vieira da Silva, imprimiu aos
organismos que tutela e que se baseia em dois pontos
fundamentais. Por um lado, os serviços centralizaram
as fiscalizações nos contribuintes com indicadores
de risco, nomeadamente aqueles que deixaram de
entregar declarações ou os beneficiários de subsídio
de desemprego que ignoraram convocatórias do
Instituto do Emprego, em vez das inspecções
aleatórias usuais até Abril. Por outro lado, o
cruzamento de dados com outros organismos do Estado
possibilitou uma melhor identificação dos casos de
incumprimento, pelo que o risco de infringir e ser
detectado é agora muito maior.
Num país com elevados níveis de economia informal e
onde o sentimento de impunidade é generalizado,
estes resultados demonstram a importância de
combater a fraude e a evasão com determinação e sem
quaisquer rodeios. Para além do efeito dissuasor e
moralizador, diminuindo os níveis de incumprimento,
o Estado consegue, assim, ser mais eficaz na
recuperação das suas dívidas em atraso, impede que
novas dívidas se acumulem e aumenta as suas
receitas, que nunca foram tão importantes como hoje
para o equilíbrio do sistema. Com estes resultados,
que podem permitir à Segurança Social obter um
défice zero ou até um saldo positivo, está
completamente afastado o cenário negativo da
Comissão Constâncio, que previu para 2005 um défice
de 600 milhões de euros. A sustentabilidade futura
do sistema não pode ser conseguida através das
verbas do fundo de estabilização da Segurança
Social, mas sim através do seu equilíbrio anual,
como terá acontecido este ano, ao contrário do que
se verificou nos anteriores. A meta estabelecida por
Vieira da Silva de recuperar 350 milhões de euros de
dívidas em 2006 é mais um passo decisivo para
garantir a sustentabilidade do sistema a prazo e
para assegurar a existência de um melhor Estado.