O relógio impõe-se cada vez
mais e o trabalho absorve o quotidiano das
cidades, definindo estilos de vida e
determinando o relacionamento entre as pessoas.
A família, conceito tão caro à direita,
esboroa-se por entre as prioridades da economia,
os objectivos empresariais e a supremacia dos
números e das percentagens. A questão não é nova
mas importa realçá-la, particularmente em tempos
de grande regozijo entre os conservadores: o
neoliberalismo não é compatível com muitos
valores tradicionais, como a lealdade das
amizades, a camaradagem e a família.
Das escolas públicas pretende-se que constituam
armazéns de crianças, onde estas possam passar o
dia enquanto os pais trabalham. Quando possível,
existem as escolas de música, desportivas, os
centros de ocupação de tempos livres, onde
crianças e jovens gastam as horas do dia até que
um dos pais os possa recolher. Introduzem-se
conceitos novos na relação entre pais e filhos,
como é a qualidade. Não é importante o tempo que
se passa com eles mas sim o que se faz quando
estamos com eles. (...)
Desde sempre o liberalismo caminhou para o
individualismo, negando como princípio tudo o
que pudesse indiciar associações de pessoas em
defesa de direitos específicos, quer no
trabalho, quer noutras questões que envolvam
direitos humanos. Para o liberalismo, é mais
difícil lidar com o grupo organizado do que com
o indivíduo isolado. E, assim, a família que
exercite a vivência familiar propriamente dita
adquire hábitos que mais cedo ou mais tarde
serão incompatíveis com as regras do quotidiano
liberal, o mesmo é dizer os preceitos das
empresas, o mercantilismo dos lazeres, os
objectivos curtos e inconsistentes.
Entre família e neoliberalismo há uma
incompatibilidade de fundo e os princípios de
que partem são opostos; a primeira exige o
sereno conhecimento das pessoas e das coisas, o
segundo pressiona o indivíduo e cativa-o para
ocupações planeadas e relações humanas meramente
formais.
Paulo Frederico F. Gonçalves
Porto