Público - 27 Jan 06
Para que servem os professores?
Para que servem os professores? - perguntou, no Prós e Contras, com trejeitos de
animadora mediática, para gáudio e aplauso da plateia acéfala, Clara Pinto
Correia, professora e investigadora (?), colunista e colunável que se tornou há
bem pouco tempo notícia escandalosa em jornais e revistas por ter plagiado uns
artigos científicos. Se foram esses os métodos ensinados pelos seus professores
ou se os ensina aos seus alunos, não me espanta que questione a sua utilidade
como professora, pois lhe bastará mandar os estudantes à Internet para fazer
copy & paste de um qualquer artigo! Mas a memória é curta... e este país parece
sofrer de amnésia crónica.
E eu, professora do ensino secundário, por vocação e escolha, me confesso: ao
fim de 35 anos de dedicação exclusiva ao ensino, senti-me esventrada até ao
âmago da alma pela agudeza da pergunta e tentei encontrar uma (possível)
resposta que gostaria de partilhar com o mundo. Para que servem, então, os
professores?
Servimos como bombo da festa e consolo nacional para a ignorância, mediocridade
e incompetência que grassa transversal e perpendicularmente em todas as
profissões (sem excepção!) deste país; presumo, a julgar pela atitude da
plateia, que não tivemos, nem temos, qualquer crédito na formação dos bons, dos
competentes e dos cultos. Se os portugueses estão na cauda da Europa, não é por
falta de habilitações, nem por trabalharem mal, mas por terem tido maus
professores!
Servimos de desculpa e bode expiatório para a impossibilidade, incapacidade ou
desinteresse dos pais (quantos destes naquela plateia?), encarregados de
educação e outros familiares em ensinarem aos filhos, nos primeiros anos da
infância, os princípios morais e cívicos, tão necessários à formação do
indivíduo. Como poderá a escola impor hábitos de higiene, de delicadeza, de
disciplina e outros igualmente básicos a alunos adolescentes, quando os não
tiveram na infância? Servimos, assim, para assediar os pais com chamadas à
escola, incomodando-os com ninharias como as faltas injustificadas, mau
comportamento ou o desinteresse dos filhos.
Servimos também para arcarmos com as culpas e responsabilidades do falhanço
continuado de reformas impostas por sucessivos ministérios, feitas muitas vezes
"sobre o joelho" e por gente que desconhece a realidade escolar e aposta no
facilitismo para mascarar o insucesso. Servimos de trampolim para muitos "chicos-espertos"
fazerem carreira à custa do nosso trabalho e da nossa dedicação, apesar das
condições miseráveis das nossas escolas. Servimos para muita coisa, pelos
vistos, menos para ensinar as matérias das nossas disciplinas, porque passamos o
tempo a tentar que os adolescentes se comportem com civismo, sentados (sim, C.
P. Correia, um acto tão simples como ficarem sentados 45 minutos) a uma mesa, a
trabalhar numa aula de Português ou de Matemática, sem gritos, sem conversa, sem
música de telemóveis, para só falar nos males menores.
Servimos de pano para toda a obra, nas nossas escolas, mas servimos, acima de
tudo, para amar os nossos alunos, para os compensar das muitas carências
afectivas, mesmo quando nos rejeitam, para tentar ensinar-lhes, embora remando
contra a maré de bruteza desta sociedade que os tritura, que há valores que são
eternos, como os diamantes e, como eles, preciosos.
Deana Barroqueiro
Escritora e professora do e. secundário
Lisboa