Público - 30 Jan 06
Ex.ma Senhora Ministra da Educação
Fernando Ornelas Marques
Os documentos em discussão
pública são dois, um relatório do Grupo de Trabalho
Manuais Escolares (GT) e um Anteprojecto de Proposta
de Lei do ME. O GT diz que "Os custos de
funcionamento das Comissões de avaliação serão
suportados pelo ME e pelas empresas do sector", e
que "A avaliação dos manuais escolares e a garantia
da sua qualidade incumbe às editoras". O GT revela
que desconhece o processo de revisão de textos
científicos, contradiz-se relativamente a quem
suporta despesas, e mistura dois tipos distintos de
controlo de qualidade: o que está a cargo do
produtor, o editor, e o que é levado a cabo por uma
entidade reguladora, o Estado. No capítulo de
Recomendações e Conclusões (5), o GT afirma que "Um
processo de avaliação prévia da qualidade de manuais
escolares é um procedimento de risco, delicado, e
temporalmente longo". Só quem revela muita
insegurança e pouca convicção é que pode pensar que
o processo de certificação de qualidade é um
processo de risco e delicado. Ao contrário, devia
pensar que é uma obrigação do produtor e do
regulador, e uma demonstração de respeito pelo
consumidor. E longo porquê? Só quem não tem prática
regular de avaliação de manuais é que poderá pensar
que o processo é muito longo. Ainda no mesmo
capítulo, o GT diz que "Haverá que contar com
fortíssimas resistências e poderosíssimas ameaças à
isenção e imparcialidade ...". Sra. Ministra,
explique-nos lá o que são fortíssimas resistências
ao cumprimento de uma Lei! Não vivemos num Estado de
Direito? E o que são poderosíssimas ameaças à
isenção de pessoas competentes e honestas?! Entre
uma ameaça e a cedência vai uma distância que é
inversamente proporcional ao carácter do avaliador:
quanto mais carácter menos cedência. Portanto, há
que escolher pessoas competentes e de carácter
inquestionável, e o assunto fica resolvido.
A actual Lei de avaliação de manuais escolares prevê
a constituição de "Comissões Científico-Pedagógicas
..." (Artigo 6º). Porque nunca funcionaram? As leis
não são para cumprir, em especial por quem as faz?!
Sra. Ministra, porque não pergunta ao Director do
extinto DEBS o que fez aos relatórios por mim
enviados, sobre manuais de Ciências do 7º ano de
escolaridade? Sabe que os ditos manuais contêm uma
colecção imensa de erros científicos e conceptuais,
de faltas de rigor, má adequação de linguagem e
conceitos ao nível etário, e ainda actividades,
ditas "experimentais", todas elas erros científicos
e conceptuais? Sabe que eles estão no mercado, e
esgotam, desde há oito anos?
Inacreditável não é Sra. Ministra?! Os actuais
Programas de Estudo do ME são, na sua generalidade,
maus. São enormes, e/ou irrelevantes, e/ou
desactualizados, e/ou definem muito deficientemente
as competências a adquirir/desenvolver pelos alunos.
Como espera que se possam fazer bons manuais sobre
maus programas?
A nova Lei contém muita burocracia, mas nada diz
sobre os critérios que fundamentarão a escolha dos
conselheiros e dos comissários. Não lhe parece que
este aspecto é crucial? Porque não se compromete com
critérios rigorosos e quantificáveis de escolha de
avaliadores? Porque não diz que os critérios de
selecção terão como base (1) o curriculum científico
(publicações internacionais em revistas cotadas no
ISI - Institute for Scientific Information -
preferencialmente como primeiro autor, como se faz
nos países mais desenvolvidos), e (2) a prática
regular de avaliação de manuais escolares (por
exemplo número de relatórios de apreciação de
manuais escolares enviados ao ME nos últimos 10
anos)? Não é assim que são escolhidos os Conselhos
Editoriais e os revisores das revistas científicas
conceituadas? Porque não adopta sistemas de
avaliação há muito testados e eficientes, e de
contornos perfeitamente claros como o peer review?
Tipicamente a revisão pelos pares não é remunerada,
pelo que não existiriam elevadíssimos custos
(afirmação do GT no seu relatório) para o Estado.
Dispõe no Estado dos investigadores e cientistas
mais competentes do nosso país, pelo que não terá
que lhes pagar duas vezes para realizarem a tarefa
de avaliação. Avaliadores a tempo inteiro?! Como
espera que uma pessoa, cientificamente
competente/excelente, vá deixar o seu trabalho de
investigador e os seus projectos para se dedicar, a
tempo inteiro, à causa dos manuais? É uma causa
muito importante e muito nobre, mas não necessita de
ocupação a tempo inteiro. Só quem desconhece o
processo de avaliação é que pode pensar o contrário.
Este tipo de emprego a tempo inteiro vai tornar-se
apetecível a quem? A amigos que apenas almejam poder
político, mas que têm pouca ou nenhuma
competência/excelência científica e pedagógica; a
burocratas que vão tornar um processo simples num
amontoado de regras e papéis que tornarão a
avaliação num inferno; a pessoas arrogantes que
acham que sabem tudo mas que vão certificar os
mesmos maus manuais actualmente existentes no
mercado; e a fracos que se vão deixar corromper pelo
tal grande poder do lobby editorial.