Presidente
da Associação de Famílias
Numerosas, no PEB
Fiscalidade é «o gigantesco hino
contra a família»
O presidente da Associação
Portuguesa de Famílias Numerosas
afirmou ontem no I Congresso
Família, que decorreu no Parque
de Exposições de Braga, que «a
fiscalidade é o gigantesco hino
contra a família».
Fernando Castro explicou que a
prova disso é que o casamento é
sinónimo de aumento de impostos.
Já em caso de separação ou
divórcio, a pensão de alimentos
é dedutível até 8.100 euros por
cada filho.
Por outro lado, realçou, «as
crianças são o tesouro da
Nação». As fraldas, pasta de
dentes, bolachas e saneamento
são taxadas com 19 por cento de
IVA, tal como os bens de luxo.
Factos como estes contribuíram
para que, em 2002, Portugal
fosse campeão de divórcios.
Segundo Fernando Castro, o país
tem «uma taxa de nupcialidade
cada vez mais reduzida, uma taxa
de divórcios cada vez mais
elevada e uma taxa de natalidade
cada vez menor».
Neste momento, há um défice de
800 mil crianças e jovens. De
acordo com as estatísticas, o
número de divórcios passou de
seis mil para 27 mil, entre 1982
e 2002, e, no mesmo período, os
casamentos reduziram de 73 mil
660 para 56 mil 391. Há 20 anos,
a média de filhos por casal era
de 2,1, enquanto que, há dois
anos, situava-se em 1,4.
O pico de casamentos registou-se
em 1970. Desde então, a descida
tem sido acentuada, apesar de
haver mais pessoas a casar mais
vezes.
Fernando Castro considerou que a
família tem sido penalizada, por
distracção do poder político.
Uma distracção que tem resultado
no encerramento de escolas,
desemprego de professores,
pressão sobre o sistema de
Segurança Social e falta de
capacidade empreendedora. Esta
conjuntura põe em causa a
sobrevivência económica e social
do país e tem como consequência
directa o envelhecimento da
população.
Por isso, o presidente da APFN
reivindica medidas que façam com
que «ser mais, custe menos».
Fernando Castro advertiu que «a
família é o útero da sociedade»,
é «uma realidade antropológica,
berço e suporte da sociedade».
Como tal, sublinhou, «o Estado
tem de se preocupar com a
família, pois esta é a
sobrevivência da sociedade». No
entender daquele responsável, a
política da família «não pode
ser um assunto social, mas um
assunto de Estado».
Fernando Castro defendeu que
«para se ter um país mais
solidário, sadio e feliz é
imprescindível contribuir para o
reforço da família com base no
casamento».
Um estudo recente mostra que há
uma incidência de problemas
juvenis em famílias
monoparentais. No que respeita a
doenças psiquiátricas essa
prevalência é de 2,1 por cento
nas raparigas e 2,5 nos rapazes.
Em termos de tentativas de
suicídio, a tendência é de dois
por cento nas raparigas e de 2,3
nos rapazes. No que toca a
álcool e drogas, os indicadores
apontam para 3,2 nas raparigas e
4 nos rapazes.
A monoparentalidade por morte de
um dos elementos do casal
(viuvez) tem um «efeito ínfimo»
no crescimento e desenvolvimento
das crianças e jovens.
Além disso, há dados que
comprovam que o risco de ruptura
familiar é menor nos casamentos
com prática religiosa e maior
nos casos de mera coabitação.
O presidente da APFN aferiu que,
embora tenha havido uma melhoria
das condições de vida nos
últimos anos, os indicadores
familiares são péssimos.
Lei de Bases da Família prevista
para antes de 2006
A coordenadora nacional para os
Assuntos da Família espera que
os deputados da Assem-bleia da
República aprovem a Lei de Bases
da Família, antes de 2006.
Segundo Margarida Neto, o
diploma já foi aprovado na
generalidade, aguarda
deferimento na especialidade. A
crise política que, entretanto,
se instalou com a saída de Durão
Barroso veio atrasar o processo.
Aquele responsável, que
participou ontem no I Congresso
da Família, acredita que o
decreto-lei entrará em vigor
ainda antes do fim da
legislatura. O documento «é uma
oportunidade de correcção de
algumas dificuldades que se
prevêem no futuro»,
concretamente, o casamento e
adopção de crianças por
homossexuais e protecção da vida
antes e depois do nascimento.
A implementação da Lei de Bases
é uma reivindicação antiga, mas
que não conseguiu vingar em 30
anos de democracia.
Apesar de reconhecer a
importância dos “100
compromissos para a família”,
implementados pelo Governo de
Coligação, Maria João Baleo
Tomé, administradora da Fundação
Pró-Dignitate, referiu que a
classe política, salvo raras
excepções, não lhe merece
confiança, porque tem relegado
para segundo plano a família e a
educação.
Em seu entender, os pais têm o
direito de escolher uma escola
para os filhos. Por isso,
repugna o facto de o Estado
estar a reduzir
significativamente os
contratos-associação com as
escolas, pois, desta forma, está
a coarctar a liberdade de
ensino.
Maria João Baleo Tomé sustentou
que é ridículo que uma criança
altamente carenciada da zona de
Lisboa receba menos de dez euros
por ano para material escolar.
Neste aspecto, «não somos
europeus». Somos dos países mais
pobres da União, com a educação
mais cara. «Conti-nuamos a ter
escolas para ricos e escolas
para os outros».
Aquela verdadeira “militante da
família” salientou que «é crime
menosprezar as famílias e
ignorar as crianças». Apelando a
uma forte aposta na educação e
na formação e ao apoio efectivo
da família, Maria João Baleo
Tomé alertou que a falta de
escolas técnicas e
profissionais, que têm vindo a
ser extintas, é um dos handicaps
do país.
Família procura outras formas
para assumir missão de sempre
O professor universitário João
Duque disse ontem, na abertura
do I Congresso da Família, que a
presente crise da família não
será, possivelmente, o anúncio
do seu desaparecimento, mas a
passagem para outras formas de
ela assumir a sua missão de
sempre.
Para o docente da Faculdade de
Filosofia do Centro Regional de
Braga da Universidade Católica
Portuguesa (UCP), «a família do
futuro e o futuro da família
está dependente da forma como
assumirmos os desafios que são
colocados ao seu presente».
João Duque referiu que «os
desafios da crise são lançados,
sobretudo, pelas constantes
transformações da sociedade e
cultura contemporâneas» e são,
actualmente, muito
diversificados e complexos,
exigindo respostas igualmente
diversificadas e complexas.
Em seu entender, um dos desafios
tem a ver com a família como
espaço de educação, nas
múltiplas relações que
constituem o seu dia a dia.
Nesse contexto, realçou, apesar
de não ser a única, a orientação
educativa dos pais para os
filhos é das mais fundamentais.
Essa tarefa, absolutamente
inalienável, tornou-se hoje
deveras complexa, levando muitos
pais quase à demissão completa.
Muitas vezes por perplexidade
exagerada, outras por comodismo,
o certo é que cada vez mais a
relação educativa entre pais e
filhos vai sendo reduzida ao
mínimo, afectando profundamente
o presente e o futuro de todos
nós, a começar pelos próprios
filhos em causa.
João Duque considerou que um dos
caminhos para dar mais confiança
e empenho aos pais, nessa tarefa
básica, será a formação,
sobretudo uma formação
pragmática, que lhes possibilite
desenvolver a criatividade e
capacidade para encontrar
soluções perante os desafios
educativos que lhes são
colocados.
Uma outra questão de enorme
importância para o professor da
UCP é o papel das comunidades
paroquiais no apoio às famílias,
para que assumam e desempenhem a
sua missão de forma adequada.
Não se trata de questões
simplesmente religiosas, mas da
vertente sócio-política do
cristianismo, que pode ser
válida mesmo para os
não-cristãos, explicou,
acrescentando que, nesse
sentido, a proposta personalista
que a vida paroquial lança,
sobretudo através da pastoral
familiar, constitui um meio
fundamental no impulso para que,
do presente, surja um futuro
digno para a família e, desse
modo, para a pessoa humana.
O académico sustentou que a
alteração da realidade torna-se
especialmente exigida quando nos
deparamos com muitas famílias
sem condições mínimas para a
realização das suas tarefas
fundamentais. Nomeadamente nos
actuais contextos de vida
urbana, o número desses
agregados aumenta
assustadoramente, quer por
razões económicas, quer por
razões sócio-culturais.
«A solidariedade entre famílias
assume, nesses contextos,
especial importância, pois nunca
poderemos contribuir para um
futuro digno, se apenas nos
concentrarmos na nossa família
ou em grupos elitistas»,
sublinhou.
Por último, João Duque afirmou
que as rápidas transformações de
mentalidades, provocadas até
pelos constantes movimentos das
modas e pela convicção de que o
que valeu ontem, já não vale
hoje, só por não ser de hoje,
originam que o fosso de
mentalidades entre gerações seja
fortemente acentuado.
Mas a família é, por excelência,
o ponto de encontro de várias
gerações. Como tal – advertiu -
uma família que não consiga
gerir, de algum modo, o conflito
de gerações, corre o risco de
fracassar como família. E se
fracassam as famílias, nesse
ponto, originamos sociedades
fragmentadas, altamente
violentas, até.
Por isso, a capacidade de
relação entre gerações
diferentes é um dos elementos
que as nossas sociedades
presentes e futuras terão que
enfrentar da forma mais séria
possível.