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P. Rui Rosas da Silva - 26 Jul 04
A PROPÓSITO DO DIA
MUNDIAL DOS AVÓS - I
Sempre atenta aos
assuntos relativos ao mundo familiar, recebi da Associação
Portuguesa de Famílias Numerosas a grata indicação da próxima
celebração do Dia Mundial do Avô.
É justo que, no
plano familiar e social, demos o respectivo relevo e apreço aos avós
de todo o mundo, porque eles são, na realidade, um grande quinhão -
quando não o único quinhão - da educação dos nossos jovens.
Parece que a nossa
sociedade, tantas vezes enfronhada nas “coisas da vida”, melhor
dito, na vertigem cheia de alibis e de tabus do quotidiano dos
nossos dias, não releve suficientemente esta verdadeira instituição
de benemerência. Os seus serviços, tantas vezes calados e
aparentemente inócuos, sustentam uma boa parte da vida afectiva de
quem é jovem e não encontra nos pais o apoio que devia ter.
As razões desta realidade
são fáceis de encontrar. Os casais claudicam perante o ambiente
consumista e concorrencial do mundo do trabalho. A ele sacrificam,
muitas vezes, porque lhes parece impossível proceder doutra maneira,
o melhor do seu esforço e do seu tempo, esgotando-se nas suas
exigências e nas suas leis. São fundamentalmente profissionais e
pais… nas horas possíveis que a primeira ocupação - a fulcral - lhes
possibilita.
E são pais também o
mínimo de vezes possível, porque é inviável - segundo a mentalidade
consumista e burguesa - poder conciliar uma labuta de trabalho
intenso e desgastante com a manutenção duma família com diversos
filhos. Deitá-los ao mundo já é de si uma aventura arriscada, porque
a empresa pode torcer o nariz (não falamos de situações utópicas),
ao ver um funcionário a quem paga repartir os seus cuidados por uma
prole considerada abundante. Supõe que assim se desconcentra em
relação aos requisitos sempre prementes da rentabilidade que os
patrões lhe determinam. Por isso, há empresas multinacionais nos USA
e por esse mundo fora que, antes de admitir uma mulher em estado de
fertilidade, obriga a fazer um teste de gravidez. E recordo ainda a
história de um amigo meu, excelente profissional que, aqui, neste
jardim “à beira mar plantado”, segundo a linguagem camoniana, quando
anunciou ao seu superior hierárquico que lhe nascera o quarto filho,
viu-o indignar-se e, com ar de quem aconselha e ameaça, comentou-lhe
que a empresa não lhe pagava “para ter filhos”.
Esta infâmia, que outro
nome não pode conhecer, supõe que os deveres laborais são superiores
à liberdade de um pobre cidadão ter a família que entender, ou, se
quisermos dizer de modo mais contundente, à falta de liberdade que
algumas linhas orientadoras do mundo económico e empresarial - na
sua versão mais inumana - são capazes de pôr em vigor, como se isso
fosse bom e natural, ou como se o ser humano não passasse de uma
espécie de formiga laboriosa, sem outra dignidade que a de ser
altamente rentável, de acordo com os critérios economicistas e
capitalistas que as empresas decretarem em cada momento da sua
existência, de acordo com os superiores interesses da seu sucesso.
Neste mundo, os avós são
frequentemente a tábua de salvação afectiva dos seus netos, que
convivem com uns pais ensonados pela manhã, sempre cheios de pressa
para não chegarem atrasados aos “seus” empregos (quantos berros e
quantas impaciências quando os filhos não se despacham à velocidade
desejada), e esgotados à noite, sem paciência e imaginação para
poderem interessar-se pelo mundo, para eles enigmático e algo
onírico, dos seus próprios descendentes, porque não obedece às
regras e aos preconceitos da rentabilidade. Não atinam com o que
lhes dizer e são pouco receptivos às sugestões de temas queridos
pelos filhos. E, ao fim de semana, querem resolver em uma tarde de
afectividade intensa, por eles orientada segundo os seus parâmetros
e preconceitos, sentindo-se desconcertados quando os filhos não
embarcam no seu jogo de adulto que quer mandar e construir
unilateralmente os modelos de interesse e de comportamento que
pensam eficazes.
Nestas circunstâncias, se
não fossem os avós, que voltam a ter a paciência de há trinta ou
mais anos para educarem uma nova geração, os seus netos sairiam para
adolescência com uma afectividade anquilosada e incapaz de continuar
a adequar-se pacificamente às exigências dos pais, numa etapa da
vida particularmente difícil e conflitiva.
Voltaremos ao assunto.
Mas não podemos deixar de agradecer a tantos avós deste mundo, no
seu dia, o trabalho educativo que estão a desenvolver junto dos
netos.
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