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Jornal de
Notícias - 28 Jul 04
Rede pública, ensino público
por D. ANTÓNIO MARCELINO Bispo
de aveiro
Oque se está a passar em relação
aos colégios ou escolas
particulares com contrato de
associação que ministram ensino
gratuito, em pé de igualdade com
as escolas públicas, ultrapassa,
porque injusto, tudo quanto se
possa imaginar.
Estamos em democracia e quando
esta não é respeitada em
aspectos essenciais, há que
denunciar, com indignação, e
esperar que a justiça seja
reposta.
As escolas particulares não são
supletivas do ensino oficial.
São um direito reconhecido e uma
forma enriquecedora e feliz de o
Estado cumprir o seu dever neste
campo. Muitas delas permitem já
aos pais a liberdade, ainda que
relativa, de escolher a escola
para os seus filhos, em regime
de ensino gratuito e de
igualdade.
Estas escolas, que integram a
rede pública, são escolas
particulares com contrato de
associação. Mas nem se respeita
esta rede nem os contratos
feitos antes.
O Ministério da Educação,
pressionado por dentro e por
fora, dita de cima para baixo,
parece não dar mais sentido à
rede pública de ensino, por si
assumida, a única com lógica,
sentido e interesse nacional.
Passou a inverter o rumo a favor
de uma rede de ensino público,
desrespeitadora dos direitos dos
pais, dos interesses do Estado,
do bem dos contribuintes, das
responsabilidades assumidas.
Como se consuma tudo isto? A
acrescentar a arbitrariedades,
injustas e enervantes que se vão
ultrapassando, pensemos na
restrição escandalosa, durante
tempo, em relação ao transporte
dos alunos, agora é decretada,
de modo unilateral, a diminuição
de turmas do quinto ano, nas
diversas escolas com contrato de
associação. Assim estas se vão
tornando progressivamente
inviáveis, para aumentar as
mesmas turmas no ensino público,
desrespeitando a rede escolar
antes determinada, os acordos
feitos, os encargos assumidos, a
proximidade da escola. Os alunos
e os pais são quem menos
interessa aos governantes.
É preciso que os cidadãos
saibam, os sindicatos não o
esqueçam e os responsáveis do
Ministério não o ocultem ao
país, que os colégios com
contrato de associação, em
geral, apresentam
comparativamente resultados
finais mais positivos e ficam
muito mais baratos ao Estado que
as escolas públicas. Estes
colégios começam o ano escolar
com regularidade e no tempo
próprio, dispõem de um corpo
docente permanente, cumprem as
normas oficiais, estão
organizados para ocupar os
tempos livres dos alunos,
possibilitam formas
complementares de ensino e de
educação, dispõem, normalmente,
de associações de pais activas,
multiplicam-se em iniciativas
válidas de inserção na
comunidade, geram processos
inovadores de ensino. Por tudo
isto, são preferidos pela
maioria dos pais que já podem
optar.
Porquê mais baratos para o
Estado? Porque os colégios
administram bem o que o Estado
paga por cada aluno, que é
incomparavelmente menos do que
custa um aluno do mesmo ano,
numa escola pública. Desafiamos
o Governo a desmentir o que
dizemos.
Sendo assim, por que incomodam
tanto as escolas particulares,
ao serviço de todos, como
acontece com os colégios
gratuitos com contrato de
associação? Por que não se
interroga o Ministério sobre a
injustiça do que está
determinando, indo de modo tão
claro contra a vontade legítima
de muitos pais, o bem de
milhares de alunos e o interesse
das populações? Por que não se
interrogam e não se indignam os
cidadãos, que pagam os seus
impostos, por este modo de
desgovernar? Por que não diz o
Governo ao país a razão destas
suas determinações, tão
destituídas de senso elas
aparecem?
Pode criar-se uma injusta
instabilidade e mesmo
inviabilidade a escolas que
dignificam o ensino, pondo-as em
condições de não poderem
responder aos encargos assumidos
com os pais e professores, só
porque o Estado não sabe o que
fazer a muitos dos seus
professores? As escolas
particulares não são contra
ninguém. Mas nunca admitirão que
estejam contra elas, aqueles que
melhor conhecem o seu valor e
têm mais obrigação de as
defender, para bem do país, dos
alunos, das famílias e da
seriedade do ensino. Será porque
muitas delas são da Igreja? Por
estas respondo eu e, se não
cumprem, então diga-se em quê e
dê-se legítimo direito de defesa
a quem é perseguido e
discriminado.
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