Público - 30 Jul 04
Mais de Seis Mil Jovens Morreram em acidentes de viação desde
1993
Este é o fim-de-semana em que, um pouco por todo o país, há
multidões a fazer-se à estrada a caminho das férias. É também, todos
os anos, um período de alto risco para os acidentes de viação. A GNR
anunciou ontem o reforço do patrulhamento nas auto-estradas,
itinerários principais e complementares durante estes três dias. Em
Portugal, é no grupo entre os 15 e os 29 anos que se concentra o
maior número de vítimas mortais na estrada: mais de seis mil nos
últimos dez anos, mais de 600 em média todos os anos. Por Sofia
Rodrigues
Os portugueses com idades compreendidas entre os 15 e os 29 anos são
as maiores vítimas mortais dos acidentes de viação. Nos últimos dez
anos, morreram 6776 jovens nas estradas do país, o que dá uma média
de mais de 600 por ano - indicam as estatísticas da Direcção-Geral
de Viação (DGV). O drama atinge não só as famílias, mas também a
sociedade, que se vê privada de uma população activa e plena de
energia, lembram alguns familiares confrontados com a tragédia.
O relatório da sinistralidade rodoviária da DGV relativo a 2003
revela que foi entre os 15 e os 29 anos que ocorreram mais mortes,
tanto entre passageiros (40,9 por cento) como entre condutores (34,4
por cento). Subdividindo mais o grupo etário, constata-se que esta
realidade incide mais nos condutores entre os 20 e os 29 anos. No
geral, os veículos envolvidos em acidentes são ligeiros e pesados,
velocípedes, ciclomotores e motociclos.
Os números ganham maior dramatismo se se tiver em conta que o grupo
entre os 15 e os 29 anos representa apenas 22 por cento da população
portuguesa, segundo o Census de 2001.
No ano passado, morreram nas estradas 413 jovens, menos 58 do que no
ano anterior. No total, em 2003, os acidentes rodoviários provocaram
1356 mortos. Mesmo assim, a soma anual de vítimas mortais tem vindo
a descer nos últimos anos, já que no início da década de 90 rondava
os 700.
Um jovem entre os 15 e os 29 anos tem mais probabilidades de morrer
na estrada do que alguém com 60 ou 70. Essa probabilidade é de 5,2 e
de 13,2 mortes por cem mil habitantes para passageiros e condutores,
respectivamente. A partir dos 30 anos, baixa para 2,1 nos
passageiros e 8,8 nos condutores.
O secretário-geral da Prevenção Rodoviária Portuguesa, José Miguel
Trigoso, sublinha que a gravidade das mortes por acidente rodoviário
entre os mais novos não é uma característica portuguesa. "Acontece
também noutros países. Tem a ver com um estilo de vida e com o risco
dos jovens."
Segundo dados de 1999, entre os 18 e os 20 anos registavam-se em
média, na União Europeia, 282 mortes por milhão de habitantes;
Portugal apresentava 309 e alguns países como a Alemanha e a Áustria
indicavam valores superiores. Também entre os 21 e os 24 anos, a
média da UE apontava 233 mortes por milhão de habitantes; Portugal
registava 338, abaixo de países como a Grécia e o Luxemburgo.
A propósito do risco acrescido de morte por acidente de viação entre
os jovens, o sociólogo francês David le Breton explica que,
"frequentemente, a carta de condução é vista como um rito de
passagem" e que, "em certos casos, a viatura é um instrumento de
agressividade decorrente das maneiras de conduzir e da velocidade".
Para os rapazes, "a viatura torna-se fortemente associada a uma
manifestação de identidade, a uma demonstração de virilidade que os
conduz a uma multiplicação de acções de risco", escreveu Le Breton
na revista francesa semestral "Les Cahiers de Médiologie". No texto,
o sociólogo sublinha que "a viatura é uma ferramenta de afastamento
físico e moral dos pais, um instrumento de tomada de independência".
Manuel João Ramos, presidente da Associação de Cidadãos
Automobilizados, também partilha esta ideia da obtenção da carta e
do automóvel (ou de uma moto) como um rito de passagem. "É muito
importante compreender a temática da violência rodoviária como
expressão de um comportamento de iniciação à vida adulta."
Para Manuel João Ramos, o automóvel na sociedade portuguesa
substituiu-se ao serviço militar, registos em que os jovens medem os
limites. "Há uma espécie de selecção antinatural: os rapazes ou
morrem na guerra ou nos acidentes."
Alguns conselhos para férias
As autoridades lembram que há cuidados que é fundamental ter antes e
durante a viagem. A GNR aconselha, desde logo, o repouso a cada duas
horas. Uma condução prudente "e que respeite os outros" passa também
pela revisão do veículo, o que implica verificar a pressão dos
pneus, travões, luzes e níveis de óleo antes de ir para a estrada. A
escolha do itinerário para evitar as vias mais congestionadas,
viajar fora das horas de ponta e, se possível, antecipar o regresso
a casa são mais algumas medidas prudentes.
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