Público - 30 Jul 04
Jaime e Paula Precisaram de Três Meses para Conseguir Retomar o
Trabalho
Para os pais de Luís Miguel, viver com as recordações espalhadas
pela casa é um dos obstáculos mais difíceis de ultrapassar
"Numa manhã não acordei e morri/ Morri assim sem aviso e feliz/ Não
estava à espera, não deixei e não fiz/ Tudo aquilo que queria e
perdi." Começava assim um poema, quase premonitório, que se pensa
ter sido escrito por Luís Miguel e que foi encontrado pela mãe, num
dos seus cadernos, dias depois de o jovem de 23 anos ter morrido num
acidente de automóvel.
Foi há um ano que Luís Miguel não resistiu a um violento embate de
outro carro, na auto-estrada do Sul, junto ao nó do Fogueteiro, às
vinte para a uma da manhã, quando regressava a casa depois de
estudar com um colega.
Licenciou-se em Física no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, em
2002, com uma média superior a 18 valores e foi convidado para ser
monitor no departamento de Matemática. Dois meses depois da data do
acidente iria fazer um doutoramento nos EUA.
Morreu no dia dos anos do pai, numa terrível coincidência. Jaime
entrou em estado de choque e precisou de ficar uma semana internado
no hospital. Só três meses depois o casal conseguiu retomar o
trabalho. Ainda hoje Jaime e
Paula têm acompanhamento psiquiátrico e procuraram conforto na Nossa
Âncora, associação de ajuda a pais em luto.
Os pais descrevem Luís Miguel, o seu filho único, como um rapaz
quase sobredotado, ajuizado e um bom filho. "Não fomos só nós que
perdemos, o país também perdeu", diz Jaime. O impacto da morte é
sentido na família, mas reflecte-se na sociedade. "Nós somos uma
farmácia autêntica e nunca mais se sente motivação para nada." Mais
tarde perceberam que no local onde ocorreu o acidente já morreram
outras três pessoas nos últimos dois anos. É um dos cenários de
corridas de jovens aos fins-de-semana.
A revolta, assumem, acaba por surgir como um sentimento natural.
"Temos dificuldade em perceber por que é que não se faz o que se diz
em relação ao Código da Estrada", diz Jaime, sublinhando que ao
permitir esta mortalidade
de jovens nas estradas "hipoteca-se o futuro do país".
Quanto ao rapaz que embateu contra o carro de Luís Miguel, um jovem
de 19 anos, desempregado, Jaime não lhe deseja a morte, nem sequer a
prisão. Preferia que ele prestasse um serviço social, nomeadamente a
trabalhar nos hospitais de reabilitação física com pessoas vítimas
de acidentes graves. Ficou profundamente desiludido quando soube que
o rapaz recebeu dos pais um outro carro, também de alta cilindrada.
A um ano de distância do dia dramático, a vida do casal ainda vai
girando em torno de Luís Miguel, até porque o processo continua
longe de ser resolvido. Viver com as recordações que estão
espalhadas por toda a casa é um dos obstáculos mais difíceis de
ultrapassar. Jaime prefere não entrar no quarto, nem ver os filmes
em que o filho aparece. Paula mantém o quarto intacto e guarda quase
toda a sua roupa. Recorda o filho como um rapaz atinado. "Nunca
dizia precisar de roupa ou de uns ténis. Preferia livros ou música.
Era o género cientista maluco. Não era deste mundo, por isso tinha
de partir."
S.R. [anterior] |