13 de Junho de 2000 - Jornal de Notícias

A traição grega
Sérgio de Andrade (*)

Vou fazendo recortes ao longo dos dias e, a certa altura, estou munido de elementos mais do que suficientes para concluir aquilo de que suspeitava: a Grécia traiu miseravelmente Portugal, atribuindo-lhe o último lugar no capítulo dos salários dentro da União Europeia. Como já tive a oportunidade de aqui referir, a Grécia, ao longo das décadas, era o país que, generosamente, nos impedia de estar na cauda da Europa numa série de coisas. Mas agora abandonou-nos!

De facto, um casal de portugueses com emprego no sector da indústria ganha em média 140 contos líquidos, enquanto que um casal grego nas mesmíssimas condições recebe quase 300 contos. E note-se que a Grécia está em penúltimo lugar, pelo que me escuso de fazer comparações com os restantes países dos "Quinze".

Mas, afinal, não resisto: o salário médio em Portugal é de 100 contos e em Espanha é de quase 300 contos.

De vez em quando, há organismos respeitáveis, internacionais, que se entretêm a lançar cá para fora estatísticas; mas não devem gostar de nós, porque os números que apresentam só servem para nos deprimir mais, a nós, que já somos um povo triste.

Por exemplo, o abono de família na Alemanha é seis vezes superior ao português. Um casal alemão com quatro filhos só será alcançado por um casal português que consiga a proeza, digna do "Guinness", de ter... 28 filhos!

"O subsídio familiar é uma anedota e não encoraja ninguém a ter filhos", disse o presidente da Associação Portuguesa de Famílias Numerosas. E é por isso, acrescentou, que muitos casais trocam a hipótese de mais um filho por uma viagem às Caraíbas.

Viajamos, portanto, nós, os portugueses? Pelo contrário, insistem as estatísticas, em matéria de saídas para o estrangeiro estamos na cauda da Europa.

Estas coisas começaram a saber-se mais desde que aderimos ao euro. Diz um ditado popular: "Julgando-me não sou ninguém, comparando-se sou alguém". Mas esta verdade parece, afinal, funcionar apenas em Portugal. Desde que aderimos à União Europeia, só nos resta alterá-lo para "julgando-me sou alguém, comparando-me não sou ninguém"...

Pelo que - por favor, alarguem a Leste a UE!


(*) Jornalista, escreve no JN, semanalmente, às terças-feiras

 

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