15 de Maio de 2000 - Diário
de Notícias
Filhos valem mais que
doutoramentos
Teresa da Cunha foi mãe 12
vezes. Abdicou de ser assistente na Faculdade de Letras para se dedicar
por inteiro à família
Cadi Fernandes
Ana Stilwell

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UNIÃO PARA A
VIDA. Teresa e António da Cunha no dia em que comemoraram
as bodas de prata, acompanhados por 11 dos seus 12 filhos e uma
das noras |
Já não há muitas
mulheres assim. Mulheres, com uma formação académica de nível
superior, que dizem: "O pai é autoridade. É o chefe de família,
o cabeça de casal. A mãe é o carinho." Maria Teresa Inglês Baião
do Nascimento da Cunha, de 57 anos, leitora de Alemão na Faculdade de
Letras da Universidade de Lisboa, casada há 32 com António José
d'Orey da Cunha, de 55 anos, advogado, não só o diz, sem pestanejar,
como acrescenta: "Em caso de dúvida, a decisão final deverá ser
sempre dele."
"Mãe de 12 filhos" é assim, antes de mais, que Teresa da
Cunha se assume: António (31 anos, advogado), Simão (30 anos,
engenheiro-agrónomo), Pedro (28 anos, engenheiro de informática),
Lourenço (27 anos, advogado), José (26 anos, médico), André (24
anos, licenciado em economia), Estêvão (20 anos, no terceiro ano do
curso de Direito), Francisco (19 anos, no primeiro ano de Gestão), João
(morreu em 1999, vítima de engasgamento, com 18 anos, sofria da síndrome
de Down), Sebastião (15 anos, estudante), Salvador (14 anos, estudante)
e Tiago (12 anos, sofre de síndrome de Down).
Mais filhos tivessem "vindo", mais feliz ficaria. "Os
filhos são importantíssimos. E eu, entre a carreira e a família,
escolhi a família e não me arrependo. A minha realização pessoal é
esta. "Toca-se" a vida nos filhos mais do que nos
doutoramentos."
Comecemos pelo princípio. Teresa e António nasceram no seio de famílias
católicas. A dele era mais numerosa que a dela (nove e dois irmãos,
respectivamente). António era amigo do irmão mais novo de Teresa e foi
assim que se conheceram.
"Ele tinha-me mandado uma cruz. Eu pu-la. Quando, num dos
encontros de jovens que se realizavam no Palácio Fronteira, de Fernando
Mascarenhas, veio ter comigo, viu a cruz e disse, com toda a delicadeza
que o caracteriza, que gostava muito de mim, e eu chorei." Teresa
tinha 19 anos e António 18. Diz agora: "Para mim, é claro que
Nosso Senhor me aproximou dele."
Namoraram cinco anos. Durante esse período, ele concluiu o curso de
Direito e ela o de Letras. "Encontrávamo-nos de manhã, à saída
do 35. A primeira coisa que fazíamos era ler "bilhetinhos"
que escrevêramos na véspera um ao outro."
De mão dada, acrescenta, iam "rezando o terço pelo Campo
Grande", que naquele tempo ainda era possível fazer isso, não
havia muito trânsito. Naquele tempo, também, "o "beato"
era ele. Foi o António que me fez ainda mais devota".
E nada de "beijos à cinema", como ironiza. Nem um. Unzinho
sequer. "Nunca nos beijámos nos lábios, falávamos muito, telefonávamo-nos..."
Nem no dia do casamento? Nem pensar! Casaram na Igreja do Carmo, em
Faro, onde já casara a sua mãe, e "na cerimónia religiosa não há
cá dessas coisas". O copo-d'água foi na Quinta do Alto, em Faro,
propriedade da família de Teresa, onde este ano casou um dos seus
filhos. Seguiu-se uma lua-de-mel, brevíssima, de dois dias, no Estoril,
porque o marido estava a cumprir a recruta.
A nível profissional, Teresa foi professora de liceu (dois anos),
assistente na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (seis anos)
e, "desde que o Pedro nasceu", leitora de Alemão no mesmo
estabelecimento de ensino superior.
"Passei de assistente a leitora para ter um horário que me
permitisse conciliar a profissão com a família", afirma, sem
sombra de arrependimento.
Como nunca fez uma amniocentese, "porque nunca faria um
aborto", encarou o nascimento de João, com síndrome de Down,
desta forma: "O João "veio" com um propósito. E também
morreu assim. Com o propósito de nos acordar para o que é mais
importante. Receber a vida é um dom precioso."
Depois do João, teve mais três filhos, o último dos quais, Tiago,
também com síndrome de Down. Para além disso, na casa de família, em
Caxias, vive também a irmã mais nova de António, Teresa, Teresinha,
com a mesma doença.
O que pensa da família? O melhor possível, está bem de ver.
"Os casais têm uma missão", generaliza. "Os casais católicos
são um sinal da presença de Deus", particulariza.
Adianta: "Os pais têm obrigação de educar os filhos. Eu
fi-lo. E, no meu entender, o mais importante que lhes transmiti foi a fé.
São todos crentes." A demonstrá-lo, ainda recentemente, quando o
Papa se deslocou a Israel, cinco deles e uma das noras foram ao monte
das Bem Aventuranças. Mais recentemente, neste fim-de-semana,
acompanhados pelo pai, estiveram em Fátima, para assistir à beatificação
de Jacinta e Francisco.
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