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Portugal Diário - 21 de Maio
Para onde vamos?
Luísa Castel-Branco
Domingo de sol. O Centro Comercial está praticamente às moscas.
Compro um bilhete para o cinema. Sala 8, lá fora, explica a senhora
da bilheteira.
Sentada na sala verifico, com os anúncios a começarem, que estão
ao todo cerca de 30 pessoas, se tanto.
Mesmo ao meu lado sentam-se, 8 ou 9 jovens, com o seu pacote gigante
de pipocas.
Antes do filme propriamente dito começar, já a conversa entre eles
está no ar. E continua, continua, continua.
Tem graça. Mesmo antes da apresentação dos próximos filmes em
exibição, a empresa proprietária do cinema oferece algumas
recomendações. "Deitar o lixo nos locais próprios. Desligar
telemóveis. Não falar durante a projecção."
Os ditos jovens continuam a falar, quando não estão a atender
telemóveis, que tocam com musicas diferentes que parecem rebentar na
sala às escuras onde o filme de suspense nos mantém, aos outros,
presos do écran.
Foi assim durante mais de uma hora. Tossi, várias vezes, a chamar a
atenção.
Cheguei-me à frente e olhei-os. Nada resultou.
Num momento do filme subiu-me a mostarda ao nariz ou então pura e
simplesmente estava saturada.
"Fazem o favor de se calarem? Estamos a tentar ver o filme"
, afirmei eu , bem alto. Das respostas imediatas a única possível de
ser reproduzível foi a do jovem ao meu lado: "Quem está mal
muda-se".
Levantei-me e fui chamar alguém que pudesse resolver o problema. A
funcionária entrou e dirigiu-se ao grupo explicando que mais uma queixa
e seriam expulsos.
O barulho, a conversa e os telemóveis pararam. Por mim teria saído
naquele momento da sala de cinema. O prazer de descontrair e ver o filme
tinham terminado há muito.
Os ditos jovens tinham um aspecto repelente, vestidos naquilo que
eles acreditam ser a moda e com um visual que assustaria qualquer
criancinha.
Resumindo, eram jovens perfeitamente normais.
O que verdadeiramente me confundiu, o que me fez pensar e escrever
esta crónica, não foram eles, mas sim os outros, os mais de 30 adultos
que estavam naquele momento, naquela sala de cinema.
Não se ouviu uma palavra de apoio, e contudo a sala era tão pequena
que o ruído provocado por eles não podia deixar de incomodar toda a
gente.
Se eu estivesse acompanhada, faria exactamente a mesma coisa. Mas sei
que quem quer que estivesse comigo iria
aconselhar-me a deixar estar, a não ligar, etc e tal.
Porquê? Porque hoje é normal!
Porque hoje tudo é normal. Tudo o que nos ofende, o que nos violenta
o respeito por nós mesmos, o que é uma afronta aos nossos sentidos,
enfim, tudo é normal.
Esta é para mim a pior afirmação que se pode fazer. Porque engloba
tudo.
E se aqueles jovens não aprenderam, não lhes foi ensinado ou pura e
simplesmente estão na idade da provocação, então que dizer dos
Adultos que se refugiam no silêncio porque...é normal?
É altura de olharmos com olhos de ver e cada um de nós assumir as
suas responsabilidades nesta Sociedade.
Chegou o momento em que é obrigatório, fundamental e uma questão
maior de cidadania, tomar posições, ter opiniões e defende-las.
Não me parece possível continuarmos, como rebanhos conduzidos ao
matadouro, a deixar rolar, a deixa acontecer tudo e para tudo termos a
mesma "resposta": Hoje é normal!
Não, meus caros Amigos e Amigas. Não é normal o que se passa em
todos os vectores da nossa vida, da vida dos nossos filhos.
Quem estiver a ler este texto, e se por acaso tem filhos, sabe o que
custa educar. É mais fácil dizer sim do que
não. É mais fácil não ouvir do que rebater. É sempre mais fácil
não actuar do que educar.
Tenho vergonha dos adultos da sala 8. Aliás, cada dia que passa me
debato mais com a vergonha dos outros e a minha anormalidade.
Para onde vamos nós?
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