Diário de Notícias - 18 de Maio

Deputados prometem acção

Programa da SIC foi gota de água. Os partidos admitem alterar a lei actual. Quarta-feira reúnem-se com a Alta Autoridade


Martim Silva 
DN-Bruno Raposo
CRÍTICAS. O novo programa da SIC (na foto) foi zurzido no Parlamento por todos os partidos. António Capucho comparou a situação actual com o "nazismo" 

A cena familiar do "Bar da TV", na SIC, pôs por uma vez todos os grupos parlamentares de acordo: É preciso acabar com o tele-lixo, que pode pôr em perigo a própria democracia. Do debate suscitado ontem no plenário de S. Bento saiu para já o anúncio de uma reunião da Comissão de Assuntos Constitucionais com a Alta Autoridade para a Comunicação Social (AACS), na próxima quarta-feira, em que os deputados vão ouvir o que a instituição tem para dizer, antes de decidirem se avançam ou não com alterações à lei em vigor.
O tema foi levantado pelo vice-presidente da bancada socialista Barros Moura, que disse ter "chegado o momento de dizer basta ao lixo televisivo", sendo necessário "mobilizar a sociedade" no propósito de travar a "lógica implacável que vai contra as mais elementares regras da decência".

Barros Moura, falando em nome do PS, defendeu a "exigência da auto-regulação", mas admitiu que se vá mesmo mais longe: "Se houver necessidade de novas leis, devemos fazê-las como consenso da sociedade".

António Capucho, líder da bancada do PSD, falou em seguida, no mesmo sentido - defendendo "acção mais que reflexão" - mas de forma ainda mais violenta, ao dizer que o que se está a passar "fez-me lembrar as experiências nazis com pais e filhos".

Os oradores seguintes mostraram acordo quanto ao cerne do problema, mas não deixaram de fazer críticas políticas aos adversários. Basílio Horta, presidente da bancada do PP, classificou de "espantoso" que só agora o PS reaja. "Quando diziamos que eram precisas medidas, acusaram-nos de securitários. São [PS] altamente responsáveis pela sociedade sem valores e pela lógica do salve-se quem puder que existe" actualmente. O deputado comunista António Filipe aproveitou para lembrar a existência de diversos dirigentes do PS que defendem a privatização da RTP (o que mereceu sorrisos amarelos entre os socialistas) e considerou que o necessário "é fazer cumprir a lei existente".

Antes de Heloísa Apolónia, dos Verdes, que também se mostrou preocupada pelo caminho tomado pelas TVs, falou Fernando Rosas, do Bloco de Esquerda, em tom dramático. "Não se iludam, ainda não batemos no fundo. Vai ser bastante pior, com as ilhas e outros que tais", disse, referindo-se aos novos reality shows já anunciados pelas estações privadas. E aqui questionou directamente aos deputados do PSD, referindo-se a Francisco Pinto Balsemão: "Então o dono da SIC não é militante do PSD. Porque é que não discutem o assunto com ele no Conselho Nacional do partido"?

Depois de abrir o debate, Barros Moura encerrou-o - não sem antes trocar com o PP uns mimos, chamando os populares de "reaccionários -, salientando o "largo consenso" parlamentar existente "para definir novas medidas". Medidas que sobretudo "sejam aplicadas".

"Em sector mercantil, como é possivel fazer cumprir o interesse público e fazer respeitar os valores morais da sociedade? Essa é a questão", continuou o socialista, que secundou as afirmações feitas na véspera ao Público pelo seu colega António Reis, em que este sustentou que a SIC pode ser punida com a suspensão da emissão. E terminou com uma frase que pode não ser popular mas espelha o sentimento que dominava na AR: "Aquilo que muitos portugueses gostam de ver é lixo. E tem de ser combatido em nome dos valores democráticos".

Cenas da vida real


Terça-feira de manhã, Miquelina e Teodomiro Gomes rumam a Lisboa para convencer a filha a deixar o Bar da TV. Motivo: as brincadeiras dos residentes da casa com preservativos e um vibrador, exibidas pela SIC no domingo. Já no Armazém F, o casal de Borba espera toda a tarde para falar com Margarida. Só consegue fazê-lo às 22.00. Em directo. A mãe apresenta argumentos que deixam a jovem concorrente lavada em lágrimas e diz, várias vezes, que não aprofunda a conversa porque a cena poderá ser depois transmitida. Nesse momento, já milhares de espectadores assistem a este episódio da "vida real". Ao toque de uma sirene, os pais saem de campo. Margarida está confusa e pede para falar com a psicóloga do programa. Entra Ediberto Lima, o produtor, e uma mulher espanhola. A rapariga de Borba diz que quer conversar a sós. E vão os três para uma sala onde os microfones e as câmaras continuam a funcionar. Margarida, afinal, fica na casa. Mas estala a polémica.


O "Bar da tv" visto pelos leitores

Estas são algumas mensagens que, por e-mail, leitores do DN fizeram chegar à redacção do jornal, focando o caso "O Bar da TV".

"Abjecta a ocupação do tempo nobre de emissão para mostrar o espectáculo de um grupo de jovens cuidando da sua higiene íntima (nos zappings que fiz, ainda pensei tratar-se de uma campanha de saúde pública, divulgando louváveis hábitos de limpeza)". (José Pereira)

"Que bem pode fazer às pessoas, assistir a esta discussão entre filha e pais, em que a filha, depois de ter, de livre vontade, participado numa cena que tocou as raias da pornografia barata, se recusa agora a reconhecer o seu erro e submete os pais a uma vergonha a nível nacional com a participação activa e verdadeiramente indecente da SIC". (Kim)

"O povo português tem um conhecido défice cultural derivado de muitos aspectos educacionais e culturais da sua história. Mas é na sua maioria bem formado e incapaz de aceitar uma atitude deste género, levada a cabo por pessoas que certamente são a excepção que confirma esta regra" (Rui Santos)

"O Dr. Emídio Rangel teve a sagrada oportunidade de fazer uma televisão alternativa aos canais da RTP. Não o fez e agora, engasga-se no veneno que criou e que a TVI acabou por usar". (Rui Bernardo)

"A APFN apela à AACS para que actue (...) contra as outras estações televisivas por transmitirem programas de manifesta grosseria e mau gosto. (...) Também deverão ser responsabilizadas as empresas que, de qualquer forma, apoiam tal programação". (Associação Portuguesa de Famílias Numerosas)

"A mais completa falta de respeito, a mais fria sensibilidade e desprezo pelas pessoas - concorrentes, família, espectadores". (Susana Lourenço)

"Como cidadão deste país, dia 15 assisti ao mais grave atentado à privacidade de outras pessoas feito em directo no programa Bar da TV. Nunca se foi tão baixo. Nunca se fez tão mal a ninguém na TV". (Carlos Rei)

"Aquilo que está a ser transmitido agora na SIC, no Bar da TV é a mais reles, degradante e nojenta transmissão televisiva alguma vez feita em Portugal. A falta de escrúpulos, de ética, de civismo e de gosto atingiu o auge quando não se hesitou em mostrar para quem quisesse ver uma conversa particular grave entre uma filha (parva, é certo) e os pais (ingénuos)". (Ana Palma) 

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