Correio da Manhã - 22 de MaioCRIME VIOLENTO
DISPARA
Uma subida de 8,7% na criminalidade violenta e grave é um dos
principais dados a extrair do Relatório Anual de Segurança Interna - 2001,
o qual analisa a actividade criminal e é discutido hoje, pelas 11h00, na
Comissão Parlamentar de Direitos, Liberdades e Garantias, da Assembleia da
República. O documento, de 131 páginas, a que o Correio da Manhã teve
acesso, indica que os crimes violentos, como homicídios, agressões graves
e assaltos, aumentaram de 18.129 para 19.707 ocorrências, entre 2000 e
2001, um diferencial de 1.578. Os roubos na via pública com ameaça física
ou de arma, responsáveis por um clima de insegurança, cresceram 17,7%, o
que se torna ainda mais significativo tendo em conta que é o delito com
mais peso nesta categoria. Esta realidade está intimamente ligada à
delinquência juvenil, "talvez, hoje em dia, um dos factores que mais
contribuem para o sentimento de insegurança existente na sociedade", com
um comportamento assente "na gratuitidade dos actos praticados,
exteriorizando recalcamentos ou revoltas com diversas causas", sublinha o
documento governamental. Estes menores aproveitam-se da inimputabilidade
face à lei, praticando, normalmente com armas brancas e de noite, ameaças,
injúrias, vandalismo, agressões e roubos, nos centros urbanos e
periferias. Na sua rubrica no relatório, o Serviço de Informações de
Segurança (SIS) aponta mesmo como "factores mais constantes de insegurança
da população ao longo do ano" o "aumento, preocupante, da gravidade dos
crimes de delinquência juvenil", a "multiplicação de casos de
criminalidade violenta com utilização de armas de fogo em situação ilegal"
e a "persistência da criminalidade associada à droga".
Delitos em cadeia
Igualmente praticado por 'gangs', mas já por indivíduos maiores de
idade, a chamada delinquência grupal registou uma subida de 34%, "o que é
inferior aos crescimentos verificados nos últimos dois anos, representando
assim uma desaceleração do fenómeno", refere o relatório. Estes grupos,
cuja passagem na rua "pode criar um medo generalizado, muitas vezes
infundado", caracterizam-se por executarem diversos crimes num curto
espaço de tempo e território. "Ao deslocarem-se vão praticando vários
delitos, num fenómeno denominado de 'crime spree'." Os membros dos 'gangs'
são, quase sempre, jovens do sexo masculino, com idades entre 16 e 24
anos, e utilizam a coacção física para atingirem os seus objectivos.
Actuam, na maioria das vezes, de cara descoberta e a pé, escolhendo, em
80% dos casos, a via pública como palco das actividades criminosas. Em
metade destes incidentes registados em 2001 pela PSP os 'gangs' eram de
três elementos, em 30% eram quatro e em 8% cinco. As suas vítimas
preferidas encontravam-se isoladas. No quadro da actuação de grupos há
ainda que incluir as máfias de Leste, responsáveis pela assinalável subida
de 119% nos crimes de extorsão.
João Monteiro com Miguel Curado
Tráfico de armamento
A análise e processamento de diversos dados pelo Serviço de Informações
de Segurança (SIS) "indica a forte possibilidade de Portugal estar a ser
utilizado como país de trânsito no tráfico de armas, nomeadamente para o
continente africano". Outra constatação é que "o mercado ilegal de armas
ligeiras, provenientes sobretudo de países do Leste europeu, dos Balcãs e
do Sul da Europa, está, igualmente, a aumentar em território nacional". As
revelações são feitas no Relatório de Segurança Interna - Ano 2001, onde é
acrescentado que a 'secreta' detectou e acompanhou, no País, "tentativas
de aquisição - com vista à exportação - de bens de uso civil e militar". A
'secreta' mostra-se também preocupada com determinados fenómenos de
movimentos marginais, como "certas franjas nacionais de pendor neonazi"
que, "no sentido de afirmar o seu envolvimento na 'guerra racial',
adoptaram um discurso mais agressivo". Também em emergência em 2001
estiveram "subculturas marginais e violentas, das quais se destacaram
fenómenos como o dos 'motards' organizados e ligados à prática de negócios
ilícitos". A rubrica do SIS constante no Relatório de Segurança Interna
tem cinco páginas incompletas e assinala um aumento das "actividades das
redes internacionais de burlões, sobretudo no Norte e Centro do País", sem
esquecer "o desenvolvimento, em território nacional, de formas específicas
e violentas de criminalidade protagonizadas por máfias da Europa de
Leste". O SIS acompanhou operações financeiras "susceptíveis de configurar
actividades de branqueamento de capitais, verificando-se que os sectores
mais utilizados para o efeito continuam a ser o bancário, as agências de
câmbio, centros 'off-shore', o ramo imobiliário e o comércio automóvel".
E, para suster esta realidade, a 'secreta' avança mesmo uma recomendação:
"Pese embora o esforço legislativo empreendido nesta área, reforça-se a
necessidade de convocar uma maior cooperação do sector privado na luta
contra este fenómeno, sobretudo no que diz respeito à detecção e reporte
das operações suspeitas às unidades competentes."
Crescimento esperado
O aumento da delinquência grupal registado no Relatório de Segurança
Interna reflecte-se mais na formação de grupos de jovens. Este não é um
dado novo para as autoridades policiais, que têm trabalhado com base em
números semelhantes, reflectidos tanto nos relatórios de 1999 como no de
2000. E este aumento da formação de grupos que se dedicam a actividades
criminosas voltou, mais uma vez , a assumir especial destaque nas áreas
metropolitanas de Lisboa e Porto, onde o número de casos suplanta, em
muito, o das restantes zonas do país. Sublinho que esta realidade se deve
à falta de uma política de cooperação entre os diversos ministérios e as
diversas autarquias, aplicada à realidade das grandes áreas
metropolitanas. Em suma, penso que os números do Relatório de Segurança
Interna de 2001, apesar de revelarem um crescimento evidente, não
reflectem ainda os índices de desenvolvimento do nosso País. Prevejo um
crescimento da criminalidade, nas suas mais diversas vertentes, para
níveis mais consentâneos com os dos países desenvolvidos. É pois essencial
reestruturar as forças de autoridade, que têm de aprender a lidar com o
crescimento da criminalidade urbana. Vamos pois esperar pelos resultados
da partilha de responsabilidades da investigação criminal entre as várias
polícias.
Francisco Moita Flores - Criminalista