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Correio da Manhã - 7 de Maio
GOVERNO AVALIA EXAME A PROFESSORES
O Ministério da Educação está neste momento a ponderar as medidas
destinadas a introduzir novos métodos de avaliação dos professores. Novos
métodos mas, afinal, nada inovadores, pois trata-se, de acordo com uma
fonte do gabinete do ministro David Justino, "de recuperar e apurar
legislação já existente mas nunca utilizada". Antes do final do ano em
curso - o ano civil que não o ano lectivo - os responsáveis governamentais
contam ter ouvido todas as partes interessadas no processo por forma a
tomar as medidas consensuais que se impõem numa matéria fundamental do
sistema de ensino. "O ministério vai ouvir os diferentes parceiros, mas
depois vai decidir", referiu a mesma fonte. Se o Executivo perfilha a
ideia de que todos os intervenientes no sistema educativo devem ser
avaliados para que haja mais qualidade no ensino, considerando que "é
fundamental a avaliação dos professores", entre os responsáveis pela
defesa dos interesses da classe há os que preferem "esperar para ver" e os
que não aceitam nada que não seja o que já existe. Entre os primeiros está
o Sindicato dos Professores da Zona Centro. José Ricardo, presidente da
estrutura sindical, refere que "se o Ministério decidir mexer na
avaliação, os professores e as estruturas sindicais não irão dizer que
não", sublinhando o facto de os professores "não temerem qualquer método
de avaliação" apesar de, habitualmente, serem "os bodes expiatórios de
todos os males que afectam o sistema de ensino". No entanto, e segundo o
mesmo responsável, "é errada a ideia de que os professores não são
avaliados". "A verdade é que já existe uma avaliação e que algumas
'arestas continuam por limar', em especial no que diz respeito à avaliação
excepcional, que já foi aprovada, mas que continua por regulamentar",
referiu. "Por isso, vamos esperar para ver as propostas do Ministério da
Educação."
Aplicar o que existe
Paulo Sucena, secretário-geral da Federação Nacional dos Professores (FENPROF),
sublinha que a "avaliação dos professores está estabelecida e
regulamentada". Por isso, acrescenta, "a FENPROF é contra a ideia de fazer
exames para contratar professores". Uma preocupação que, de resto, a
estrutura sindical já deu a conhecer ao ministro David Justino, em
audiência. O sindicalista, de resto, afirmara recentemente, em artigo
acessível na página da FENPROF na Internet, a sua desconfiança face a
algumas medidas perfilhadas pelo Executivo no domínio da educação,
considerando que este estará apostado "em provar uma profunda
mistificação", ou seja, "a de que com o regresso dos exames no ensino
básico está encontrada a chave que vai abrir as portas da qualidade do
ensino, a qual será ainda sustentada por uma férrea avaliação das escolas
e dos professores ou seja através da avaliação do desempenho individual e
colectivo dos docentes". Para Paulo Sucena "de lado fica todo o resto e à
sociedade são mostrados os responsáveis por tudo o que de mau possa
acontecer no sistema educativo - os professores". Opinião contrária tem,
contudo, Marta Duarte, professora em exercício e autora de manuais
escolares, para quem os exames nos diversos níveis de ensino "são úteis,
pois permitem avaliar o desempenho dos alunos e, através deste, o
desempenho dos próprios professores".
'Face mediática'
Opinião idêntica no que toca aos "suspeitos do costume" têm os pais dos
alunos, deixando claro que não acreditam "que os professores sejam o cerne
de todos os problemas do ensino" mas, eventualmente, "a face mais
mediática do sistema de ensino". A título de exemplo, apontam o caso do
absentismo: "Basta um professor faltar para 80 ou 90 alunos ficarem sem
uma aula.". Vítor Sarmento, o presidente da Confederação Nacional das
Associações de Pais (CONFAP), considera também que a avaliação "não é nada
do outro mundo". "Consideramos que é possível melhorar o que já existe mas
não é eficaz na sua aplicação". Sobre a responsabilidade dos professores
naquilo que corre mal no ensino português, o representante das associações
de pais confessa que se sente "mais triste" com a desmotivação. "Embora
haja um leque muito razoável de professores com 'chama', noutros nota-se
uma falta de dinamismo que me entristece. Nesses, a 'chama' apagou-se."
Para Vítor Sarmento, "a culpa não é só dos professores" e essa ideia é
"injusta". A avaliação, defende o responsável da CONFAP, "deve funcionar
não como algo negativo, de punição, mas como uma forma de tentar que o
meio possa ajudar o professor a melhorar". A título de exemplo, adianta, a
formação contínua dos docentes - indispensável na obtenção dos créditos
para subir de escalão - "deve ser feita tendo em conta as necessidades da
escola".
Luís C. Marinha/Ricardo Marques
Os 'suspeitos do costume'
Mais do que responsáveis pelos problemas do sistema de ensino, os
professores consideram-se como "os suspeitos do costume, os bodes
expiatórios de problemas nos quais têm uma quota parte de responsabilidade
mas não têm a culpa por inteiro". Se reconhecem que a sua formação pode,
em alguns casos, ser considerada insuficiente não deixam de argumentar
"ser habitual esquecer que os professores são apenas uma engrenagem numa
máquina que, também ela, não funciona da melhor maneira". Avaliar o
desempenho dos professores, como se faz para os estabelecimentos de
ensino, também não será a panaceia milagrosa: "Quem irá fazer essa
avaliação? Com que bases? Os resultados obtidos serão idóneos?". Um
conjunto de questões que, antes do líbelo acusatório contra toda uma
classe, deveria ser colocado aos responsáveis governamentais. Para os mais
radicais, para os que consideram que o mal maior reside nos docentes, a
defesa é feita com recurso a um método que não merece a aprovação dos
principais visados: os exames aos alunos. O princípio, pelo número de
respostas favoráveis, parece ser o eleito dos professores.
Quota parte de responsabilidade
A deficiente formação dos professores, que é difícil de avaliar em
virtude de, ao contrário dos alunos, não estarem sujeitos a um 'exame de
aptidão', e um excesso de absentismo parecem ser as principais acusações
dirigidas aos professores. Parecem, pois, em abono da verdade, nenhuma das
fontes contactas pelo 'Correio da Manhã' atribui exclusivamente aos
professores a responsabilidade pelo problemas do sistema de ensino, sendo
consensual adoptar como filosofia considerá-los "como uma parte do
problema". Menos consensuais, ao contrário do que seria legítimo pensar,
são as afirmações dos próprios docentes, "que todos os dias se avaliam e
avaliam os colegas", para quem a sua quota parte de responsabilidade não é
despicienda, "a começar pela forma pouco crítica com que encaram alguns
aspectos da sua formação". Não espanta, por isso, que sejam os próprios
docentes a considerar "não como desejável mas, pelo menos, como útil uma
avaliação regular ao desempenho dos professores".
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