Diário de Notícias - 20 de MaioO horror da
educação
João César das Neves
Deve-se sempre chamar a atenção, sobretudo com novo governo, para o
nosso horror educativo. Portugal tem muitos obstáculos ao desenvolvimento.
São tantos que por vezes se tem a sensação de que os progressos
conseguidos são quase miraculosos.
Com a incompetência da regulamentação, a paralisia da burocracia, o
peso dos impostos, o bloqueio do corporativismo, bem podemos desesperar.
Depois, ninguém sabe bem como, o País até avança. Com dificuldade e
distorções, mas avança. Só que isso nada tira à terrível responsabilidade
dos que, de forma quase criminosa, destroem o desenvolvimento nacional.
Entre os obstáculos, não há nenhum mais destruidor e pernicioso que o
sector educativo.
A Saúde derrapou nos custos, a Justiça entupiu, as Finanças
enlouqueceram, mas a Educação, que tem mais influência ética, cultural,
técnica e produtiva que todos, é o inverso do que devia ser.
Quem, sabendo das nossas necessidades socioeconómicas, olhe para o
aparelho escolar fica com a sensação de que foi feito por um espírito
malvado.
Tudo parece cientificamente estudado para funcionar mal, perversamente
planeado para destruir o potencial da juventude e desviá-la para
actividades inúteis ao desenvolvimento.
Pululam as denúncias e as reformas, mas as monstruosas aberrações
continuam a acumular-se.
O problema começa logo na profusão de escolas superiores de educação.
Dezenas de instituições lançam, todos os anos, no mercado uma multidão de
candidatos a professores. O País tem uma necessidade desesperada de
engenheiros, informáticos, técnicos de vários ofícios, mas em vez disso
produz milhares de docentes.
É que ser professor é muito agradável. Eu até sei! Claro que aturar uma
turma pode ser horrível, mas há compensações. O horário é leve e flexível
e existem muitas férias, que ainda se aumentam com "paragens".
Além disso, os professores saem, para acções de formação, reuniões
lectivas, etc.; e até podem, como os funcionários públicos, faltar quando
querem, trocando por um dia de férias. Sem perder nada, de facto, porque
as férias escolares são fixas.
Como a evolução demográfica há décadas reduz fortemente o número de
jovens em idade escolar, existem já nos quadros públicos milhares de
professores sem ensinar, simplesmente afastados de actividades úteis,
privados de dar o seu contributo para o desenvolvimento. Este excesso
constitui um enorme desperdício de pessoas válidas e inteligentes, um
esbanjamento criminoso, num país com as nossas necessidades. O ministério,
porém, apenas pensa em assegurar postos de trabalho, mesmo que seja para
não fazer nada de aproveitável. A maneira mais fácil é multiplicar tarefas
administrativas, simular actividades circum-escolares, multiplicar
disciplinas especializadas. É isso que está a ser feito, há anos, mesmo
que não se ensine nada de interesse.
Os programas dos 11.º e 12.º anos são disso prova evidente. Estão
recheados de cadeiras que ensinam matérias delirantemente avançadas para
esse grau de ensino. Quando chegarem à universidade, tudo terá de ser
reaprendido e, se o aluno não for para lá, vai esquecer conhecimentos que,
de facto, são supinamente desnecessários. Entretanto, os estudantes estão
horrivelmente carenciados de capacidades elementares de português,
matemática e outros domínios básicos. Mas andam a aprender
psicossociologia da animação social, sistemas digitais e materiais e
técnicas de expressão plástica, sem saber escrever ou calcular.
Uma das áreas com maior desenvolvimento nos últimos anos é a de Artes.
Sendo uma das opções básicas e naturalmente atraente nessas idades, goza
de grande incentivo por parte dos professores. Fugindo de matérias mais
difíceis e confiada nas garantias dadas, uma parte muito significativa dos
alunos portugueses escolhe esta orientação. Mas, para fazer o quê? Qual é
o curso e, mais tarde, a profissão que vão encontrar os múltiplos
estudantes de Artes? A principal saída da maioria desses jovens será a de
serem professores liceais de Artes, criando mais iguais a si.
Noutras áreas, o problema é o inverso. Na medicina, por exemplo, a
crise educativa embrulhou-se com a crise da Saúde. Controlado pela classe
médica, a quem interessa a reduzida concorrência, há muito tempo que o
sistema só permite o acesso nas faculdades de Medicina a alunos com médias
astronómicas no secundário. A relação entre o grupo dos adolescentes
"marrões" e o dos futuros adultos com vocação médica é evidentemente muito
pequena, mas o sistema força essa conexão.
Assim estamos a construir um país onde uma enorme quantidade de
excelentes médicos nunca o chegam a ser e entregamos a nossa saúde aos
virtuosos dos testes liceais.
Há décadas que os responsáveis da Educação são a principal força
destruidora do progresso português. Depois, ninguém sabe bem como, ainda
há quem consiga, em Portugal, uma formação útil à sociedade. Mas também
isso é quase miraculoso.
naohaalmocoagratis@vizzavi.pt