Diário de Notícias - 24 de MaioDebate:
programação infantil (des)educa crianças
ISALTINA PADRÃO
Afinal, "que programas existem na televisão portuguesa que uma criança
possa (deva) ver?"
Esta pergunta, feita por uma mãe moderna, ficou sem resposta no debate
sobre "A importância da programação infantil televisiva na formação das
crianças", realizado ontem no Museu João de Deus (Lisboa), paredes meias
com a Escola Superior de Educação com o mesmo nome e responsável pelo
evento.
A resposta não surgiu. Não exactamente pela inexistência de programação
para crianças, mas sim devido à falta de qualidade, independentemente do
canal onde ela é transmitida.
Maria Emília Brederode Santos, presidente do Instituto de Inovação
Educacional, que, em tempos, esteve à frente da programação da RTP
dirigida aos mais novos, lamentou o facto de "a televisão se estar a
preocupar, cada vez menos, com os programas infanto-juvenis". E ironizou:
"Parece que qualquer televisão que se reja pelas audiências, não pode ter
bons programas". Ao alertar para a impossibilidade da escola fazer tudo em
relação à componente educativa, Maria Emília avisa para o facto de um meio
como a televisão "ser um instrumento educativo muito importante. Para o
bem e para o mal".
Se informar, recriar e educar era, até há pouco tempo, a função das
cadeias televisivas, os participantes no debate já não têm a menor dúvida
de que a terceira missão foi totalmente colocada de parte e dizem que isso
está bem patente na discussão sobre o serviço público de televisão, um
assunto na ordem do dia.
Cristina Ponte, professora da Universidade Nova de Lisboa, também ela,
em tempos, ligada à programação infantil da RTP, alertou para outro
aspecto pertinente. No seu entender, é lamentável que os programas para
aos mais jovens estejam revestidos de uma forte componente consumista e
marketing. "As três principais companhias de entretenimento movimentam 83
mil milhões de euros. Isto mostra bem como a animação é um investimento
atractivo", refere.
Mara Roque, coordenadora de programas educativos da Rádio Televisão
Cubana, partilhou com a audiência, maioritariamente de alunos da João de
Deus, pequenos "filmes" representativos de como com poucos recursos, no
país de Fidel Castro, se conseguem fazer programas de qualidade. Em Cuba,
onde toda a televisão é estatal, há um televisor em cada sala de aula das
escolas da capital e todos os estabelecimentos do país têm pelo menos um
aparelho onde um programa educativo é assistido pelos alunos quase como se
de um conteúdo programático se tratasse. "Ter uma televisão de qualidade
só resulta se todos tiverem acesso", diz.
António Ponces de Carvalho, director da João de Deus - para quem todas
as televisões, estatais ou privadas, têm de exercer serviço público -
lamenta ver "países investirem, em canais exclusivamente educativos
enquanto o nosso desinveste." Mas há ainda quem, à semelhança, do
Francisco, aluno da escola e defensor de que ainda se fazem bons
programas, considere que o lixo televisivo só é visto por quem quer, pois
"existe um botão que diz off".