Expresso - 18 de Maio

Mercado da Educação
António Pinto Leite

«Acreditar que o Estado português pode ser bom gastador do nosso dinheiro é como acreditar na fidelidade do Capitão Roby. A reforma do sistema de ensino deve ser mais do que a reforma do sistema de ensino público. A reforma da educação deve promover a criação de um mercado da educação menos imperfeito do que o actual, em que o Estado detém quase o monopólio.»

É hoje quase consensual que o sistema público de educação sai caríssimo aos portugueses e apresenta maus resultados.

Não há qualquer evidência de que a qualidade da educação tenha melhorado e há a certeza matemática de que são exorbitantes os custos que os nossos impostos suportam com este sistema.

A crise de qualidade mostra-se em aspectos estruturantes do sistema: falta de autoridade, má prestação internacional dos nossos alunos em disciplinas fundamentais, baixo nível de escolaridade mínima, ponto em que as nossa taxas estão na cauda da OCDE, ou, em contraste, elevado nível de iliteracia, de tal modo que o estudo da Comissão Europeia de 2000 indica que apenas 28% dos portugueses têm o mínimo para responder aos desafios da sociedade moderna, e, desses, só 5 % têm capacidade de processar com facilidade informação complexa.

Neste cenário sombrio, dir-se-ia que Portugal investe uma parte demasiado pequena da sua riqueza em educação, mas passa-se o contrário, Portugal investe na educação uma percentagem do PIB superior à média da União Europeia.

O que está em causa neste dados, como já denunciava o Fundo Monetário Internacional, em finais de 1999, são «níveis consideráveis de ineficiência», isto é, gastamos todos uma fortuna num sistema que produz maus resultados.

A opção mais fácil seria a de acreditar que é possível tornar o Estado eficiente e bom gastador do nosso dinheiro e, assim, pacificando os sindicatos, reformar o sistema por dentro e aos poucos.

Acreditar que o Estado português pode ser bom gastador do nosso dinheiro é como acreditar na fidelidade do Capitão Roby.

A reforma do sistema de ensino deve ser mais do que a reforma do sistema de ensino público. A reforma da educação deve promover a criação de um mercado da educação menos imperfeito do que o actual, em que o Estado detém quase o monopólio.

O melhor método para levar o Estado a ser eficiente no sector da Educação é criar um mercado da educação.

O mercado da educação passa por diversos instrumentos, os quais podem ser introduzidos com gradualismo.

O «cheque educação», através do qual o Estado subsidia a educação de cada jovem, cabendo aos pais escolher a escola, é uma ideia imbatível: promove a liberdade de escolha dos cidadãos, incentiva a concorrência entre escolas, reduz os custos públicos com a educação, torna mais selectivo o sistema educativo.

Se há tantas resistências culturais e políticas a esta medida, comece-se pelo nível autárquico. Não há nada como fazer uma experiência para se dissiparem os medos e as dúvidas.

Também as «escolas alvará» serão uma boa medida. Grupos de professores mais dinâmicos ou instituições, como a Igreja, poderão candidatar-se, com projectos concretos devidamente quantificados, a abrir novas escolas (ou assumindo escolas em funcionamento). O Estado aprova os objectivos e subsidia os projectos pagando uma determinada quantia por aluno, dependente dos resultados. Muitos professores do sistema público sentir-se-iam atraídos por este modelo.

Esta seria também uma solução interessante para atrair instituições privadas, com muito bons resultados e muito «know-how», para zonas degradadas.

Outras medidas deveriam ser lançadas, como entregar à gestão autárquica ou privada algumas escolas, ou mesmo privatizar instituições de ensino.

Também na educação, o Estado não tem qualquer moral para se reclamar como o quase exclusivo produtor de serviços de educação.

O Estado, para evitar a sua própria degradação e do sistema no seu todo, deve estimular novas formas de concorrência.

O mercado da educação seria uma consequência da liberdade. Contra a liberdade há resistências, mas não há argumentos.

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