Expresso - 18 de Maio

Família e preconceito

João Carlos Espada

«As pessoas têm os seus modos de vida aos quais estão 'attached', estão ligadas, e esses modos de vida têm valores que não são os do 'Homem Novo'. A construção do 'Homem Novo' vai por isso requerer um enorme exercício de 'engenharia social' visando redesenhar a partir de cima os modos de vida das pessoas. Essa engenharia social vai ter como alvo fundamental a destruição dos 'pequenos pelotões' tão caros a Edmund Burke - as instituições espontâneas e descentralizadas, de que a família é a primeira.»

NA PASSADA quarta-feira, «celebrou-se» o Dia Mundial da Família. As aspas são alusivas ao facto de que, em boa verdade, quase ninguém celebrou. A família não é um tema caro, para dizer brandamente, aos «mass media».

E a razão é simples: ela é vista como uma das muitas amarras que a sociedade burguesa teria construído para submeter os indivíduos à dominação da propriedade privada, do lucro e da lógica cega do mercado.

O que os nossos comunicadores de massas ignoram é que esta hostilidade para com a família, a propriedade privada e o comércio não é uma «inovação progressista» de Karl Marx. É, pelo contrário, uma hostilidade que tem pelo menos 2500 anos e remonta à República de Platão. E é uma hostilidade que distingue uma longa tradição de pensamento autoritário e reaccionário. Platão, Rousseau (que teve cinco filhos e os enviou a todos para o orfanato) e Marx são alguns dos expoentes maiores desse reaccionarismo autoritário. Todos os autores desta tradição se reclamaram da liberdade. Mas esta não é a liberdade dos indivíduos concretos, ou das pessoas, que conhecemos no dia-a-dia. As pessoas que nós conhecemos (e que nós somos) são pessoas enraizadas em modos de vida realmente existentes - pessoas com uma família, uma profissão, alguma propriedade, eventualmente uma igreja, seguramente uma concepção particular do bem e da vida. São pessoas concretas e, portanto, também pessoas variadas.

Em contrapartida, os indivíduos a que se referem os críticos da família - os indivíduos de que falavam Platão, Rousseau ou Marx - não são estas pessoas concretas, ou, para ser mais exacto, são apenas algumas dessas pessoas. São aqueles que têm uma interpretação muito especial de liberdade: os que vêem a liberdade como libertação de todos os laços sociais particulares que nos ligam àquilo que nos é familiar. É por isso que, em bom rigor, esta liberdade como libertação do familiar supõe a ideia de um Homem Novo - um homem que, no dizer de Platão, Rousseau e Marx, se desenraizou de todos os laços particulares e que começou a raciocinar a partir do zero. É o cidadão espartano que Rousseau elogiava, o revolucionário profissional de Marx, ou o filósofo de Platão. Não é por acaso que todos eles condenavam a família e a propriedade privada, duas expressões fundamentais de laços particulares ou familiares.

O problema com esta doutrina da liberdade enquanto libertação do familiar é bastante simples: a maior parte das pessoas não quer libertar-se do que lhe é familiar. As pessoas têm os seus modos de vida aos quais estão «attached», estão ligadas, e esses modos de vida têm valores que não são os do Homem Novo. A construção do Homem Novo vai por isso requerer um enorme exercício de engenharia social visando redesenhar a partir de cima os modos de vida das pessoas. Essa engenharia social vai ter como alvo fundamental a destruição dos «pequenos pelotões» tão caros a Edmund Burke - as instituições espontâneas e descentralizadas, de que a família é a primeira.

Os críticos da família acusam-na de se fundar no preconceito. Ocultam, no entanto, o preconceito em que se funda a sua própria crítica à família: o preconceito contra a liberdade.

E-mail: jcespada@netcabo.pt

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