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Público - 12 de Maio Tectos
Contributivos Obrigatórios Só para as Novas Gerações
Por EUNICE LOURENÇO
"Plafonamento" da segurança social
Bagão Félix foi ao conselho nacional do CDS-PP explicar as linhas mestras
da política social
Os tectos contributivos - valor a partir do qual não se deve descontar
para a segurança social - serão só obrigatórios para as novas gerações, ou
seja para quem tenha acabado de entrar no sistema ou entrar depois de
aprovada a nova lei de bases, que ontem o ministro da Segurança Social e
Trabalho, Bagão Félix, foi explicar ao conselho nacional do CDS-PP,
reunido em Leiria. "Os tectos contributivos são para as novas gerações"
afirmou o ministro, que quer que "as pessoas que vão entrar agora no
mercado de trabalho saibam que o Estado daqui a 40 anos não lhes vai poder
dar as mesmas condições" de garantia de pensões altas que dá agora.
Já em entrevista ao PÚBLICO, na semana passada, Bagão Félix tinha
explicado que o "plafonamento" só será obrigatório para as novas gerações.
As pessoas com 50 anos ou mais à data de entrada em vigor da lei não terão
possibilidade de "plafonamento". Pelo meio fica uma faixa que já está no
sistema e que poderá optar entre prosseguir com descontos apenas para o
sistema público ou entrar num sistema misto.
Ao colocar o "plafonamento" como regra apenas para as novas gerações,
Bagão Félix pretende que as pessoas que já contribuem há alguns anos não
vejam as regras mudadas a meio do jogo e, ao mesmo tempo, acredita que
assim irá minorar os efeitos de redução da receita da segurança social que
esta medida poderá acarretar. Além disso, o "plafonamento" não será feito
sobre o total de descontos para a segurança social: no desconto que cada
pessoa faz só cerca de 70 por cento vai para a reforma, o restante vai
para as funções de solidariedade do Estado, como os abonos e os subsídios.
Os tectos contributivos serão impostos só sobre a percentagem que vai para
a reforma, o restante não será "plafonável".
Para além da defesa do sistema misto contributivo na segurança social, que
será consagrado na lei de bases que o Governo se comprometeu a entregar no
Parlamento até Junho, Bagão Félix desenvolveu outros aspectos dessa lei,
como as alterações em termos de subsídios de doença e de invalidez. No
primeiro caso, defendeu subsídios diferentes para doenças diferentes, além
de alterações fiscais que façam com que deixe de ser possível a quem está
de baixa ganhar mais do que se estivesse a trabalhar.
No caso do subsídio de invalidez, Bagão Félix defendeu uma alteração
profunda do seu cálculo, que deve deixar de ser feito a partir dos anos de
descontos. No actual sistema, explicou, uma pessoa de 62 anos que se
reforme por invalidez tem a sua reforma quase por completo, mas um jovem
que deixe de poder trabalhar fica com "uma pensão de miséria" porque
descontou poucos anos. O cálculo da pensão de invalidez por anos de
desconto não é, pois, "uma norma correcta", segundo o ministro que promete
mudar as regras.
Bagão Félix assumiu, assim, o essencial do projecto de lei de bases que o
CDS-PP entregou no Parlamento ainda durante o primeiro governo de António
Guterres. Projecto que, aliás, tinha tido a colaboração do actual
ministro.
Indivíduo antes da família é "uma ideia perversa"
Perante o conselho nacional do CDS, Bagão Félix defendeu ainda uma maior
protecção social às mães trabalhadoras e medidas de maior proximidade em
relação aos idosos que devem deixar de ter que ir para lares a 50 km das
suas terras. Em relação aos centros de dia, afirmou que o problema dos
idosos não é durante o dia, é durante a noite.
Bastante aplaudido ao longo de toda a sua intervenção, o ministro da
Segurança Social fez uma introdução em que expôs os seus princípios
doutrinários. Em primeiro lugar defendeu uma doutrina centrada na pessoa.
"Essa doutrina não é o individualismo. É o personalismo. A pessoa humana é
o ponto de partida e de chegada, o sujeito de todas as políticas sociais",
afirmou Bagão Félix, fazendo em seguida a defesa do princípio da
subsidariedade do Estado, que, acrescentou, deve organizar-se à medida das
necessidades e não sujeitar os indivíduos às suas necessidades.
Também a defesa da família foi uma constante no discurso do ministro. "A
família antes da cidade, a cidade antes do Estado", definiu Bagão Félix,
para quem é a "dimensão familiar que dá sentido" às políticas sociais. A
ideia de colocar o indivíduo antes da família é, disse, "uma ideia
perversa".
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