Alunos
na Linha de Fogo
Por NUNO PACHECO
Enquanto por cá se vão anunciando, a partir do Ministério da Educação e
já pelo punho de David Justino, algumas medidas para repor algumas regras
no nosso caos educativo, chegam-nos de várias latitudes relatórios e
estudos inquietantes ou mesmo assustadores, todos eles divulgados ou
analisados no PÚBLICO ao longo da semana que findou.
O primeiro, levado a cabo por investigadores da Universidade de
Columbia, nos EUA, conclui que cerca de 200 mil estudantes das escolas
públicas nova-iorquinas sofrem de perturbações mentais como stress
pós-traumático, ansiedade e medo de espaços abertos, isto na sequência dos
atentados do 11 de Setembro (muitos alunos tiveram amigos ou familiares
mortos ou
desempregados) e do prolongado estado de alerta que se lhe seguiu. A
conclusão resultou de um inquérito a mais de um milhão de alunos de 94
escolas de Nova Iorque e alarmou as autoridades, que não esperavam números
assim.
O segundo provém de uma guerra mais silenciosa e quotidiana, mas também
mais banal e muitas vezes inevitável: o divórcio. Desta vez o território
escolhido foi a França e baseou-se no impacto das separações conjugais no
sucesso escolar dos filhos. Embora polémico, o estudo, coordenado por um
demógrafo e divulgado no "Le Monde", equaciona algumas feridas desses
processos, quando há crianças a culparem-se pela separação dos pais, a
tornar-se agressivas ou insolentes, a isolar-se do mundo ou a procurar nos
professores a atenção que os pais, em litígio, não lhes dedicam.
O terceiro, e sem dúvida o mais grave, é que se resulta de um
mega-inquérito levado a cabo pela UNESCO nas escolas do Brasil.
Entrevistas a 34 mil alunos e a 13.400 pais e professores de 340 escolas
de 14 estados concluem que o ambiente geral nas escolas é de insegurança,
tensão e violência. Ameaças e agressões, físicas ou verbais, consumo e
tráfico de drogas, violações e homicídios fazem parte do dia-a-dia escolar
no Brasil. O que, longe da ansiedade pós-traumática dos alunos
nova-iorquinos ou do sentimento de abandono dos alunos franceses cujos
pais se separam, conduz sobretudo a uma espiral incontrolável de
violência, onde o medo cede o lugar ao ódio e à sede de vingança e esta,
por sua vez, redobra a violência numa espiral sem fim. É certo que os
alunos são, neste caso, as principais vítimas, mas são também os
principais agressores. A proliferação dos "gangs" associados ao tráfico de
droga ou a outro tipo de crimes (assaltos, vandalismo,
homicídios) é tal que o relatório da UNESCO, com mais de 300 páginas,
fala mesmo de "banalização da violência" ou "cultura da violência" no
Brasil.
Se, como habitualmente se diz, é em grande parte nas escolas que se
forma o carácter dos futuros adultos, parece que o mundo terá ainda mais a
temer pelo que aí vem.