Público - 6 de Maio

Alunos na Linha de Fogo

Por NUNO PACHECO

Enquanto por cá se vão anunciando, a partir do Ministério da Educação e já pelo punho de David Justino, algumas medidas para repor algumas regras no nosso caos educativo, chegam-nos de várias latitudes relatórios e estudos inquietantes ou mesmo assustadores, todos eles divulgados ou analisados no PÚBLICO ao longo da semana que findou.

O primeiro, levado a cabo por investigadores da Universidade de Columbia, nos EUA, conclui que cerca de 200 mil estudantes das escolas públicas nova-iorquinas sofrem de perturbações mentais como stress pós-traumático, ansiedade e medo de espaços abertos, isto na sequência dos atentados do 11 de Setembro (muitos alunos tiveram amigos ou familiares mortos ou

desempregados) e do prolongado estado de alerta que se lhe seguiu. A conclusão resultou de um inquérito a mais de um milhão de alunos de 94 escolas de Nova Iorque e alarmou as autoridades, que não esperavam números assim.

O segundo provém de uma guerra mais silenciosa e quotidiana, mas também mais banal e muitas vezes inevitável: o divórcio. Desta vez o território escolhido foi a França e baseou-se no impacto das separações conjugais no sucesso escolar dos filhos. Embora polémico, o estudo, coordenado por um demógrafo e divulgado no "Le Monde", equaciona algumas feridas desses processos, quando há crianças a culparem-se pela separação dos pais, a tornar-se agressivas ou insolentes, a isolar-se do mundo ou a procurar nos professores a atenção que os pais, em litígio, não lhes dedicam.

O terceiro, e sem dúvida o mais grave, é que se resulta de um mega-inquérito levado a cabo pela UNESCO nas escolas do Brasil. Entrevistas a 34 mil alunos e a 13.400 pais e professores de 340 escolas de 14 estados concluem que o ambiente geral nas escolas é de insegurança, tensão e violência. Ameaças e agressões, físicas ou verbais, consumo e tráfico de drogas, violações e homicídios fazem parte do dia-a-dia escolar no Brasil. O que, longe da ansiedade pós-traumática dos alunos nova-iorquinos ou do sentimento de abandono dos alunos franceses cujos pais se separam, conduz sobretudo a uma espiral incontrolável de violência, onde o medo cede o lugar ao ódio e à sede de vingança e esta, por sua vez, redobra a violência numa espiral sem fim. É certo que os alunos são, neste caso, as principais vítimas, mas são também os principais agressores. A proliferação dos "gangs" associados ao tráfico de droga ou a outro tipo de crimes (assaltos, vandalismo,

homicídios) é tal que o relatório da UNESCO, com mais de 300 páginas, fala mesmo de "banalização da violência" ou "cultura da violência" no Brasil.

Se, como habitualmente se diz, é em grande parte nas escolas que se forma o carácter dos futuros adultos, parece que o mundo terá ainda mais a temer pelo que aí vem.

 

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