Revista de Domingo do Correio da Manhã -  11 de Mai 03

 Famílias

ENA TANTOS FILHOS...

Na próxima quinta-feira, dia 15 de Maio, celebra-se o Dia Internacional da Família. Apesar do conceito estar em crise, há quem embarque nesta ‘aventura’ de corpo e alma. Mas ter cinco, sete ou dez filhos não é fácil. E acima de tudo, é muito caro

Texto de:  Sofia Rato

 

Maria Isabel Barbosa, viúva, completa 52 anos de idade no Dia Internacional da Família. É professora no ciclo preparatório e, após um dia de trabalho em que convive com os seus adolescentes, tem outra missão a cumprir: ser mãe de sete filhos com idades compreendidas entre os 13 e os 22 anos. O que motiva um casal a ter vários filhos? Projecto de vida? Convicções religiosas? “Eu e o meu marido decidimos ter filhos porque gostávamos muito de crianças e acreditávamos que uma família numerosa além de ser divertida, era mais fácil de educar em todos os sentidos, excepto no económico”, confessa. Prosseguindo: “Quando temos muitos filhos, eles aprendem a não ser egoístas, a compartilhar tristezas e alegrias e a serem solidários”. Ou seja, numa família numerosa existe uma espécie de código entre irmãos. “Se há coisa que nunca permiti foi que eles bulhassem ou discutissem, mesmo quando eram mais novos”, salienta.

Curiosamente, todas estas ‘crianças’ têm amigos oriundos de famílias igualmente numerosas, mas também têm outros que são filhos únicos. Zé, de 17 anos, comenta: “Tenho amigos que são filhos únicos e que têm imensa pena de não terem irmãos”. Ao que Joana, de 21 anos, acrescenta: “Os nossos amigos gostam muito de vir cá a casa”.

Maria Isabel, a mãe, olha para os os seus ‘rebentos’ e recorda: “Venho de uma família numerosa. Somos nove irmãos, apesar de eu ser a única que teve mais que três filhos. Já o meu marido, tinha seis irmãos”.

Numa família ‘tradicional’, o agregado familiar é composto, em média, pelo casal e, no máximo, dois filhos. Já as famílias numerosas, passam a ser consideradas como tal, a partir do momento em que existem três ou mais filhos. Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2001, existiam em Portuga, com 9 ou mais filhos, 259 casais legalmente casados e 54 em uniões de facto (ver caixa).

 

SEM DINHEIRO PARA AS FÉRIAS O presidente da Associação Portuguesa de Famílias Numerosas (APFN), Fernando Ribeiro de Castro, tem 51 anos e a mulher, Leonor, 49. Completam este ano 30 anos de casados. Têm 13 filhos com idades compreendidas entre os 28 e um ano, e quatro netos.  “Ter filhos estava associado ao nosso projecto de felicidade. Casámos para ser felizes, temos lutado por isso e os filhos são o resultado dessa felicidade”, assegura Fernandocastro, admitindo que, ao longo da vida passaram por diversas dificuldades: “É óbvio que temos passado por momentos complicados. Eu desisti da minha carreira e mudei completamente de rumo, a minha mulher desempregou-se, mudámos de casa várias vezes e nem sempre tivémos possibilidades financeiras para passar férias fora de casa - apesar de, para mim, as férias servirem para a família estar junta e não para se gastar dinheiro. Mas  mudar, é positivo. A mudança faz parte da vida”.

Alexandra Fortunato de Almeida, mãe a tempo inteiro, tem 36 anos, é casada com Mário - de 39 anos - e têm cinco filhos: “Decidimos ter estes filhos porque gostamos muito de crianças. Mas confesso que quando fiquei à espera do quarto, foi uma surpresa serem gémeos”, revela Alexandra, acrescentando: “É uma alegria ter a casa cheia. Aqui nunca estamos sozinhos, há sempre uma enorme agitação, especialmente quando os mais velhos chegam da escola”.

O casal é um caso quase raro no âmbito das famílias numerosas: sendo ele empresário e estando ela em casa, conseguem usufruir de um conforto material que lhes permite contar com a ajuda de duas empregadas de segunda a sábado, ter os filhos a estudar no ensino particular e viver numa casa ampla, com seis assoalhadas. E querem ter mais filhos? “Não posso voltar a ser mãe, única e exclusivamente por razões médicas. Já fiz três cesarianas”, explica Alexandra.

O agregado familiar de Maria Alice Alvim, 42 anos, casada e funcionária pública é composto por dez pessoas. Maria Alice e  Francisco, 45 anos, têm  oito filhos com idades compreendidas entre os três e os 14 anos. “Os meus filhos têm mais ou menos uma diferença de ano e meio”, afirma Maria Alice. E porquê ter tantos filhos? “Quisémos ter uma família grande, foi um projecto de vida que é difícil mas óptimo e extremamente compensador”.

 

DENOMINADORES COMUNS. Há aspectos comuns a todas as famílias numerosas: são divertidas, bem-dispostas e têm sempre uma história ou um episódio para contar. “À hora de jantar, reunimo-nos todos e há sempre motivos de alegria”, sublinha Maria Alice.

O quotidiano destas famílias é completamente distinto do ‘habitual’. Comecemos por aspectos básicos como lavar roupa. “Temos duas máquinas e no mínimo, fazemos cinco máquinas por dia”, revela Fernando Castro. “Habitualmente a  máquina trabalha três vezes por dia, até porque os gémeos sujam-se muito”, acrescenta Alexandra Fortunato de Almeida. “As minhas máquinas trabalham muito: a de roupa umas duas vezes por dia e a de loiça diariamente”, salienta Maria Isabel Barbosa.

E as deslocações? “Mesmo que seja para ir almoçar fora, vamos sempre em dois carros”, conta Alexandra. “O meu carro dá para sete pessoas, eles bem apertadinhos cabem todos. Mas, neste momento, estamos a pensar trocar um carro grande por dois mais pequenos porque os meus filhos mais velhos têm carta”, revela Maria Isabel.

 

AS DIFICULDADES E AS QUEIXAS “Conheço dois ou três casos de famílias numerosas que têm um bom suporte financeiro. As restantes são como nós, pessoas de classe média, que trabalham e que vivem dos seus ordenados, muitas vezes baixos”, comenta Maria Alice, prosseguindo: “Trabalhamos sete horas por dia no nosso local de trabalho, e outras sete em casa. Às vezes é muito duro”.

Ao longo desta reportagem, praticamente todas as famílias se queixaram da penalização a que são sujeitas pelo Estado: paga-se mais impostos por se ser casado; os bens essenciais como àgua e luz são elevados. “Por exemplo, no IRS só se pode descontar cerca de 150 euros anuais por cada criança quando, na realidade, todos sabemos que qualquer família gasta mais de 150 euros (30 contos) por mês com um filho. O curioso é que o Estado sabe isso – e é por essa razão que dá cerca de € 350 por mês às Famílias de Acolhimento para educarem uma criança”, reclama Fernando Castro, Presidente da APFN. Para rematar:  “Este Governo já perdeu muito tempo e dois Orçamentos. Esperamos não voltar a ser penalizados em 2004. É a nossa batalha”.

Recentemente, a Câmara Municipal de Sintra laçou o pacote de Água Familiar, medida que todas as famílias numerosas gostariam de ver implementadas no resto do país. “É ridículo o que temos que pagar de água e de luz, sem qualquer incentivo. Afinal, são os nossos filhos que amanhã estarão a pagar a Segurança Social e as reformas dos funcionários”, comenta uma das entrevistadas. “Até na Rússia se ajudam casais com filhos na ordem do salário médio nacional. Em toda a Europa Ocidental, isso já acontece, menos em Portugal, Espanha e Itália. Estes dois últimos países já ‘acordaram’ mas nós aqui estamos a anos luz...”, acrescenta Fernando Castro.

“Para termos qualquer tipo de ajudas temos que ser considerados completamente pobres”, indigna-se Maria Alice Alvim, concluindo: “Nós vivemos dos nossos ordenados, será pedir muito que o Estado Português siga os exemplos europeus?”.

Na Europa, salientam, fomenta-se e incentiva-se o crescimento das famílias e respeita-se o papel de mãe. “Porque é que as mães não são incentivadas a trabalhar em tempo parcial, sem reduções brutais nos salários, ou em tele-trabalho?”; “Porque é que, por exemplo, em França e na Alemanha os abonos de família são decentes e em Portugal ridículos?”. Estas são algumas das questões levantadas por estas famílias numerosas, que vivem à medida das suas possibilidades, ou seja, muitas vezes só sobrevivem.

 

CINQUENTA MIL CRIANÇAS Fernando Castro vai mais longe ao constatar que, actualmente, “a taxa de natalidade é de 1,4 por cento, quando deveria rondar os 2,1. Ou seja, a natalidade em Portugal tem que aumentar 50%. Em termos práticos isto significa que é preciso convencer um em cada dois casais a ter mais um filho.

Para isso é necessário que o Estado alerte os cidadãos para o problema e crie as condições necessárias para a sua resolução.

Para que se saiba, em Portugal faltam 50 mil crianças por ano para que as gerações se renovem – melhor dizendo, era preciso que nascessem 140 crianças por mês ou 20 crianças por dia. “Toda a gente sabe isto, mas ninguém diz porque é politicamente correcto não o dizer”, defende o presidente da APFN.

Certo é também que não é fácil ter e cuidar de uma família numerosa numa sociedade pautada por injustiças e onde as contas estão mal feitas.

Ainda assim, as palavras de Maria Alice Alvim acabam por demonstrar que este é um projecto de vida dominado pela alegria: “Ter uma família numerosa é um desafio enorme, uma missão, mas isso permite-nos viver felizes. É que as alegrias multiplicam-se e as tristezas dividem-se”.

 

DIA INTERNACIONAL DA FAMÍLIA

Dia 15 de Maio, a APFN vai organizar o ‘Serão da Família’, evento que, na voz de Fernando Castro, o presidente, ‘vai servir para mostrar a importância da família, a importância do serão e a importância da Associação”. Ao todo, em Portugal continental e nas regiões autónomas, ocorrerão 21 conferências que têm início às 21h00. Mais informações em www.apfn.com, apfn@apfn.com.pt ou, ainda, através do 21 755 26 03 (depois das 15h00). É também neste dia que arranca o ‘Plano Mais Família’.

 FAMÍLIAS PORTUGUESAS EM 2001

Número de Filhos  4  5 6 7 8 9 ou mais
Casados 27255 7690 2563 987 362 259 
Uniões de Facto   4043 1428 542   236  86 54

Fonte: INE, Recenseamento Geral da População e Habitação – 2001

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