Público - 20 Mai 03

Direcção do Piaget de Macedo de Cavaleiros Suspende Praxes
Por ANA FRAGOSO

O director do Instituto Piaget de Macedo de Cavaleiros, Luís Cardoso, decidiu suspender as praxes académicas "por tempo indeterminado". Na base desta decisão estão relatos de quatro alunos do 1º ano da Escola Superior de Saúde, que garantem ter sido agredidos física e verbalmente durante um "Tribunal de Praxe" que teve lugar na madrugada do passado dia 16 e onde todos os caloiros tinham de obedecer a ordens dos mais velhos, que assumiam o papel de juizes e advogados. A recusa de um esteve na origem da briga.

"Este episódio, a ser verdadeiro, merece medidas a dois níveis: por um lado, os alunos devem apresentar queixa às entidades competentes - é um caso de polícia; por parte do instituto, o que nos compete é cancelar as praxes por tempo indeterminado (depois vamos tentar saber o que realmente aconteceu e apurar as responsabilidades de quem organizou este evento)", afirma Luís Cardoso.

Filipe Antunes, um dos alunos queixosos, garantiu ao PÚBLICO que não pretende que o caso fique impune: "Vamos dar conhecimento à nossa coordenação [na própria escola] e vamos apresentar uma queixa ao Ministério Público". Até ao final do dia de ontem, não tinha, contudo, sido oficialmente apresentada qualquer denúncia às autoridades locais. A confirmar-se a queixa dos quatro caloiros, Luís Cardoso afiança que, "sem hesitação, será aplicado o regulamento disciplinar do instituto, que passa pela adopção de sanções que vão desde uma simples advertência até à expulsão".

Segundo estes estudantes, as agressões "verbais e físicas, com murros e pontapés", que deixaram marcados os rostos de dois caloiros, "começaram porque um deles se recusou a apanhar com porcarias em cima, começou a
sentir-se mal, saiu para a rua, nós fomos atrás ver o que se passava e foi então que cinco elementos da trupe [alunos mais velhos que praxam os mais novos até ao final da Queima das Fitas], encapuzados, começaram com as agressões", conta um. Outro colega acrescenta que, "depois de a briga ter começado, elementos até da comissão de praxes e alguns exteriores à academia começaram também a pontapear-nos".

O director considera o relato "gravíssimo" e até uma afronta ao próprio Instituto Piaget, "que se empenhou em promover umas jornadas de reflexão de onde resultou uma carta de princípios que foi distribuída pelos estudantes [ver texto nestas páginas] e que devia ter sido respeitada", sublinha. "Por que razão é que estava a decorrer um Tribunal de Praxe?", questiona. "Todos os nossos princípios são contrários a isso".

"Quartas-feiras negras"

A festa académica em causa decorreu fora do instituto, na nave principal do parque de exposições municipal. Segundo o presidente da comissão de praxes do Piaget, Pedro Prisco, "foi organizada com vista a promover a reconciliação com os caloiros, era uma festa de união". Este responsável pela organização do evento garante que não se apercebeu da briga e nega que tenha existido sequer "Tribunal de Praxe". "As praxes eram simbólicas", diz.

Mas outros alunos do instituto admitem que foi "constituído um tribunal, com um colectivo de juizes, advogados de defesa e acusação, por onde passaram todos os caloiros; aqueles que não compareceram nesta actividade ficaram proibidos de usar traje no próximo ano", explica uma estudante de fisioterapia.

De qualquer maneira, Pedro Prisco nega responsabilidades no sucedido na madrugada de 16, argumentando que "tudo o que acontece fora das portas do recinto onde decorreu a festa deixa de ser da responsabilidade da Comissão de Praxes".

A trupe académica, elementos trajados encapuzados a quem é conferido o direito de praxar os caloiros fora do recinto do instituto, continua a actuar sobretudo às quartas-feiras à noite - as chamadas "quartas-feiras negras". No entender de Luís Cardoso, "não devia existir qualquer trupe neste instituto", sobretudo depois da primeira denúncia de abusos nas praxes académicas na semana do caloiro, uma situação que levou mesmo uma aluna a anular a matrícula

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