RTP.pt- 13 Mai 05

Famílias monoparentais portuguesas são as que trabalham mais a tempo inteiro

Portugal é um dos países da União Europeia (UE 15) onde as famílias monoparentais mais trabalham a tempo inteiro o que as obriga a recorrer a serviços de guarda das crianças, criando-lhes sentimentos de culpa, revela um estudo.

Elaborado pelas sociólogas Joana Vaz Pereira e Maria Luísa Toledo Gomes, o estudo Comparativo das Políticas Familiares na Europa dos 15 entre 1990-2004, será apresentado sábado em Lisboa durante o II Serão Nacional da Família.

O serão, promovido pela Associação Nacional de Famílias Numerosas, visa assinalar o Dia Internacional da Família que se celebra domingo.

Segundo o estudo, Portugal, Finlândia e França são os três países da chamada Europa dos 15 em que os pais de famílias monoparentais mais trabalham em regime de "full-time".

Foram analisados os casos da Bélgica, Dinamarca, Alemanha, Grécia, Espanha, França, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Países Baixos, Áustria, Portugal, Finlândia, Suécia e Reino Unido.

Para aqueles pais, a flexibilidade do horário de trabalho pode ser um elemento amigo ou inimigo da família.

Quanto mais elevadas forem as qualificações e os rendimentos mais a flexibilidade do horário serve como um instrumento de apoio à família.

De acordo com o estudo, quando os salários são mais baixos a mesma flexibilidade do horário de trabalho torna-se inimiga da família, uma vez que muitas vezes corresponde a horas atípicas de trabalho e a obstáculos de acesso ao trabalho por parte dos pais.

Nestas situações, os pais reduzem as suas horas de trabalho de modo a evitar os elevados custos da guarda das crianças.

Para todos os pais cujas qualificações e rendimento se encontram abaixo da média os serviços formais de guarda de crianças (creches ou infantários) a baixos preços e ou os serviços informais de guarda de crianças são fontes decisivas para acederem ao trabalho.

O significativo envolvimento de membros da família nos serviços de cuidados prestados às crianças apresenta vantagens e desvantagens.

As vantagens encontram-se associadas ao facto de esses serviços informais serem geralmente estáveis e não pagos.

Além da contribuição dos avós nesta matéria, muitos dos pais consideram também importante que os ex- companheiros/pais das crianças participem nos cuidados dos seus filhos.

As desvantagens estão associadas à dependência e obrigação que os pais sentem em justificar as suas vidas aos membros da família que cuidam dos seus filhos.

Por essa razão, acrescenta o documento, surgem sentimentos de falta de privacidade, sendo este tipo de sentimentos comuns para as mães adolescentes/jovens que ainda vivem em casa dos seus pais.

A maioria dos pais trabalhadores de famílias monoparentais tentam equilibrar o trabalho e a guarda das crianças com diversas fontes de serviços formais e informais e o tipo de rendimento influencia fortemente a escolha dos serviços.

Quando se faz uma comparação relativamente ao apoio familiar, existem largos contrastes entre o sul e o norte da Europa.

Em Portugal e em Itália, a solidariedade familiar tende a permitir às mães sozinhas a obtenção de um trabalho, apesar de muitas vezes significar trabalhos pouco qualificados e mal pagos.

Na Finlândia, na França, e no Reino Unido, outros membros da família, muitas vezes as avós maternais, podem ir buscar as crianças no fim do dia à escola ou aos centros de dia ou ás actividades extra-escolares com o objectivo de preencher a falha existente entre o fim do expediente dos serviços formais de guarda das crianças e o regresso do pai/mãe do local de trabalho.

As pessoas dos países do sul da Europa parecem estar menos isoladas das redes de família, fazendo com que, por diversas vezes, se sintam em dívida para com a mesma.

Em oposição, os países onde os serviços formais de guarda das crianças são elevados, os sentimentos de dívida para com a família são menos usuais.

As famílias da Finlândia, França e Reino Unido usam frequentemente a combinação dos serviços informais com os formais.

Apenas os portugueses e italianos usam com mais frequência as facilidades privadas disponíveis para os cuidados prestados a idosos ou crianças

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