Jornal da Madeira - 15 Mai 05

 

Tempo para estar com os filhos é pouco e, quando há, aparecem outros afazeres

Famílias “em crise”

Carla Ribeiro

 

João Correia, membro regional da Associação Nacional das Famílias Numerosas, é de opinião que a noção do conceito “família” mudou muito. O mesmo responsável considera que as famílias estão em crise. O diálogo não existe, acaba cada um para seu lado. Não só os pais mas também os filhos.

 

As famílias «estão em crise», admite João Correia. No dia em que se assinala o Dia Internacional da Família, o JORNAL da MADEIRA quis ouvir o que pensa aquele membro regional da Associação Nacional das Famílias Numerosas sobre a noção de família, que, hoje em dia, «está em constante transformação». A falta de tempo, o facto de ambos os progenitores terem de trabalhar, o “stress” do dia-a-dia, estão a provocar um vazio cada vez maior entre pais e filhos, deixando estes últimos muito isolados.
A família dita tradicional «está a enfrentar problemas muito sérios, muito em particular no nosso país. Isto no que diz respeito ao tempo que os pais estão em casa e arranjam tempo para o convívio e encontro com os filhos», considera João Correia, para logo adiantar que os próprios meios de comunicação, nomeadamente a televisão, fazem com as pessoas utilizem o pouco tempo que estão em casa para fixar os olhos no pequeno ecrã, em detrimento do diálogo entre marido e mulher e pais e filhos.
A dificultar o relacionamento entre pais e filhos, há ainda o facto de as pessoas estarem a decidir casar e ter filhos cada vez mais tarde. Uma situação que provoca um fosso grande entre as gerações. As ideias e as formas de pensar colidem, acabando por haver discussões ou quem opte por se remeter ao silêncio, considerando que, dessa forma, evitará quezílias.
«Há uma série de desvios que fazem com que as pessoas se afastem. Há uma alta taxa de divórcios porque as pessoas não conversam e, se não conversam, não se entendem».
João Correia diz que «há uma série de coisas, como computadores, DVD, PlayStations e afins» que estragam todo um convívio que se quer saudável entre pais e filhos.
Embora não considere que as famílias numerosas são perfeitas, João Correia é de opinião que a crise ao nível da família pode ser atenuada quando esta é composta por mais elementos. «Não há dúvidas de que, quando as pessoas têm muitos filhos, regra geral, fazem-no porque gostam de crianças e porque querem apostar na família. Por isso, à partida, estão disponivéis para dialogar. Isto, por muito trabalho que tenham», refere João Correia.

Todos juntos na casa do pai
Élia Fernandes tem 10 irmãos (seis raparigas e quatro rapazes). Faz parte de uma humilde família câmara-lobense. Diz que, em casa, quem sempre trabalhou foi o pai, que se encarregava de levar o ganha-pão para 13 pessoas. Nem sempre a vida foi fácil em termos económicos, mas, já no que toca a convivências, Élia Fernandes refere que «a família sempre se deu muito bem». Aliás, ainda hoje, apesar de quase todos casados, reúnem-se quase diariamente na casa do pai (a mãe já faleceu), onde ainda vivem três irmãos solteiros. Apesar de terem a sua família constituída, é na casa do pai que encontram o seu “porto de abrigo” e conversam entre todos. Inclusive, os que já casaram e abandonaram o lar dos pais continuam a ajudar os solteiros na «tarefa lá em casa». Apesar de «grande, a família dá-se bem. Mesmo muito bem», conta.
Élia Fernandes, agora na casa dos 30, diz que, quando era pequena, o convívio ainda era maior, porque a juntar-se à sua já “grande” família, «vinham os primos [cinco] da casa de cima». «A nossa tia, que tinha mais posses, comprava muito comer e deixava na nossa casa. Muitas vezes, a minha mãe fazia o almoço para nós e para eles. Éramos mais de vinte numa cozinha», lembra.
Hoje, os tempos são outros. «Cada qual para o seu lado. E é cada vez mais difícil encontrar famílias numerosas e unidas». Em primeiro lugar, como sublinha Élia Fernandes, «porque não há tempo nem dinheiro para criar muitos filhos». «A gente sai de casa a correr e volta, ao fim do dia, a correr».
Mesmo assim, assegura ser uma mãe responsável. Com duas filhas já crescidas (uma delas adolescente), Élia Fernandes nunca se esquece de perguntar às “meninas” como decorreu o dia na escola e se há problemas por resolver. «Tenho a minha consciência tranquila», diz. Talvez por ter uma família muito unida, Élia Fernandes dá valor à união, considerando que «o diálogo é o mais importante».

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