Expresso - 17 Mai 04

 

Opinião de Manuel Monteiro
Sexo e Educação  

 

Pensar diferente dos programas oficiais e dizer «não» ao pensamento correcto é uma ousadia que nem todos estão dispostos a ter. A democracia de alguns exige comportamentos padrão, atitudes determinadas e convicções muito precisas, sob pena de exclusão política.
 
A liberdade de opinião tem sentido único e, em nome do moderno e da evolução dos tempos, discrimina - se quem possui outros valores e outras formas de agir. Não espanta pois, tal como noticiou o EXPRESSO, na edição de sábado, que um professor tenha sido ameaçado de punição disciplinar, pelo facto de se ter recusado a seguir os manuais escolares sobre educação sexual. Ao que parece, não querer ensinar a crianças do pré-escolar, do 1º e do 2º ciclos, o que é sexo oral, relações coitais, para onde vai o esperma e masturbação individual, é considerado desrespeito perante o pensamento do Estado.
 
Não sou, nunca fui e espero nunca ser moralista ou falso moralista. Sou partidário da informação e do correcto esclarecimento, mas confundir ensinamentos base sobre o aparelho reprodutivo e os cuidados a ter para prevenir ou evitar doenças sexualmente transmissíveis com aquilo que nas escolas portuguesas se está a passar é simplesmente inadmissível e motivo para veemente protesto. Bem sei que esta afirmação foge aos cânones das APF, de quem as lidera e de quem lhes paga, mas é o que penso e não estou disponível para abdicar da minha liberdade de pensar e muito menos da minha liberdade de me exprimir. Sejamos claros, porque o tempo das meias palavras passou: uma coisa será, por exemplo, respeitar as orientações sexuais, sejam elas quais forem; outra bem diferente é incentivar certo tipo de relações só porque isso interessa a meia dúzia de pessoas que em nome da diferença mais não querem do que a igualdade.
 
Esta escola que impõe valores desrespeita o pensamento e o papel dos pais, é uma escola fascista, totalitária, que reivindica para o estado a função de único educador e formador de consciências.
 
A notícia do EXPRESSO exige respostas do poder político e exige explicações dos partidos que estiveram até há poucos meses no Governo. O PSD e o CDS, cujos dirigentes não perdem oportunidade para aparecer curvados nas igrejas gritando aos sete ventos a sua religiosidade, tiveram responsabilidades nacionais e foram coniventes com aquilo que nos é relatado a propósito de educação sexual e do programa educacional seguido nas escolas nacionais. Falam constantemente das famílias, mas tratam-nas como accionistas mais do que minoritárias em matéria de educação dos filhos. Os pais, casados, não casados, separados, divorciados, não podem ser entes menores nesta matéria. Têm pois o direito a protestar e a reivindicar a liberdade para dar aos seus filhos a educação que bem entendam. E nessa liberdade tem de caber a possibilidade de dizerem o que é para eles essencial em matéria de educação sexual e de família.
 
Mas tão importante como essa liberdade de ensinarem é a liberdade de serem informados. Se é com o dinheiro dos seus impostos que estes programas são financiados, que estas associações são subsidiadas, directa e indirectamente, e que certas pessoas são pagas para ditarem as suas leis, então o direito a essa informação é ainda maior. Numa República todos nós, cidadãos livres, somos administradores e sócios da empresa Estado. Com que direito podem então alguns dizer o que lhes apetece e fazer o que querem, sem que a maioria seja ouvida, consultada e escutada? Com que direito?
 
 
Nota: não conheço pessoalmente o prof. João Araújo e só soube da sua existência através do EXPRESSO. Saúdo todavia a sua coragem em denunciar o «status quo» e em nome da liberdade a dizer «não» ao pensamento único.

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