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Expresso - 21 Mai 05
Debate em aberto
Monica
Contreras e Rosa Pedroso Lima
A
notícia do EXPRESSO provocou uma onda de reacções. Os partidos estão divididos,
mas reclamam um debate.
Só o Governo não adianta o que
pretende fazer
O Ministério da Educação
«não tem mais nada a dizer» sobre a
situação da Educação Sexual nas escolas portuguesas. Apesar dos protestos - que
levaram ao lançamento de uma petição, a críticas de vários sectores e até a um
requerimento formal do grupo parlamentar do CDS pedindo esclarecimentos -, Maria
de Lurdes Rodrigues recusa-se a adiantar se vai tomar qualquer iniciativa nesta
área sob sua tutela.
Logo no início da semana, a
Associação Portuguesa das Famílias Numerosas lançou no seu sítio na Internet uma
petição dirigida ao Presidente da República e ao presidente da Assembleia da
República, assim como ao primeiro-ministro, ministra da Educação, provedor de
Justiça e procurador-geral da República, reclamando, entre outros pontos, a
«suspensão imediata» da aplicação das
actuais Linhas Orientadoras para a Educação Sexual nas Escolas, programa que
vigora desde 2000. Até ao final da tarde de ontem, eram perto de 6.500 as
assinaturas recolhidas.
Na segunda-feira, a
comissão parlamentar de Educação recebeu a visita da ministra Maria de Lurdes
Rodrigues e questionou-a sobre esta matéria.
«Não ficámos satisfeitos com as respostas», disse ao EXPRESSO João
Almeida, o deputado centrista representado na Comissão.
«A ministra considerou normais as diferenças de opinião existentes sobre esta
matéria» e, segundo o deputado, confirmou mesmo
«estar em andamento» a renovação do
protocolo assinado com a Associação para o Planeamento da Família, para
prosseguimento destas acções escolares na área da Educação Sexual. Na sequência
desta intervenção, o CDS enviou um requerimento pedindo esclarecimentos formais
ao Governo sobre a «natureza»,
«condições financeiras» e
«avaliação» do protocolo. O partido
quer ainda saber se o Ministério pretende, ou não, alterar o actual sistema de
Educação Sexual.
PSD
frustrado e BE concorda.
Mas as bancadas
parlamentares estão muito divididas nesta questão. João Teixeira Lopes, do BE,
defende a «educação sexual como disciplina
independente e virada para as questões da saúde» e considera que
«os ensinamentos da APF são os mais científicos e os mais adaptados aos jovens».
As outras Organizações Não Governamentais que têm protocolos com o Ministério
pecam, segundo o deputado bloquista, por surgirem
«coladas à doutrina da Igreja; defendem o método
natural e a não utilização do preservativo». Defendendo que os
responsáveis governamentais «deixem de daí
lavar as suas mãos e passem a definir conteúdos, com pais, médicos e outros
especialistas, numa visão aberta», Teixeira Lopes assume concordar
com os manuais existentes.
Luísa Mesquita, da bancada
parlamentar do PCP, considera «impossível o
país continuar sem medidas sobre educação sexual. Continua a existir pouca
formação de professores e pouca articulação entre os parceiros».
Admitindo a possibilidade de terem existido «más práticas», a responsável
comunista defende que tal não justifica, de forma alguma, a decisão de
«acabar com a educação sexual nas escolas».
As eventuais falhas, segundo Luísa Mesquita, surgem por
«não ter havido investimento na formação de
professores nem em manuais. Cabe agora ao Governo redefinir e clarificar os
conteúdos», conclui.
Já Pedro Duarte, do PSD,
considera-se «chocado» com os dados revelados
pelo EXPRESSO e perante a «ineficácia total» da educação sexual ministrada nas
escolas. Apesar de ter tido responsabilidades governativas recentes, o deputado
social-democrata assume que o seu Governo «começou com boas intenções, mas que
não conseguiu concretizar». «Nesse
sentido,
assumo uma certa frustração», conclui.
Os sociais-democratas
optam, porém, por não reagir no imediato.
«Vamos aguardar pela decisão do Governo» e pelas iniciativas a tomar
pela ministra da Educação. No entanto, o compasso de espera não será ilimitado,
esperando pelo «início do próximo ano
lectivo» como data limite para se conhecerem os novos projectos e
decisões.
Finalmente, as Associações
de Pais vieram reivindicar um papel mais activo na definição dos conteúdos a
ministrar nesta área do ensino. A Confederação Nacional (Confap) conta ter
pronta até ao final do mês uma proposta de alterações para apresentar à
ministra. Um conjunto de federações e associações - que se reclama representar
mais de dez mil pais e encarregados de educação - solicitou uma audiência com
carácter de urgência a Maria de Lurdes Rodrigues. Estas associações pedem ao
«Governo que a Educação Sexual deixe de ser
feita de forma descontrolada e à revelia dos pais».
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