Expresso - 21 Mai 05

Um ataque às crianças

«Estes defensores das crianças dão cabo da sua privacidade.»

O PROGRAMA de educação sexual para os alunos do Ensino Básico, que este jornal revelou na semana passada, é um escândalo. E antes que venha o coro inquisitório acusar-me de várias coisas extraordinárias, incluindo o inevitável reaccionarismo e a muito na moda homofobia, permitam-me que repita: é um escândalo.

Não pretendo discutir se é, ou não, boa ideia serem as escolas a ensinar educação sexual. Mas sei que é péssima ideia ensinar-lhes este programa de relações sexuais. Primeiro, porque o desenvolvimento das crianças é muito diferente (entre rapazes e raparigas é totalmente desfasado); depois, porque as famílias hão-de ter o direito de educarem - ao menos neste aspecto - os filhos como bem entenderem; terceiro, porque não aceito que haja uma concepção científica ou, pelo menos, um conceito testado neste campo (ou seja, nada permite dizer que esta educação sexual leva a que as pessoas sejam mais previdentes, mais felizes ou mais bem sucedidas emocionalmente no futuro); quarto, porque parte de um pressuposto errado: as crianças actuais não são filhos ou netos de pessoas com imensos tabus, mas da geração que efectuou a grande revolução sexual dos anos 60, que, por vezes com exageros, destruiu mitos e tabus das gerações anteriores. É estúpido pensar-se que as meninas continuam proibidas de ler Eça, ou que os rapazes conhecem a primeira mulher numa casa de passe.

Ainda que nada do que acabo de escrever fosse verdade, um ponto existe naquele programa que é, a meu ver, execrável: pelo menos nos exemplos dados, o programa visa destruir a privacidade de cada criança e convida-a a partilhar com colegas e professores aspectos que devem ser da sua intimidade. Imaginem que as questões do programa eram feitas a um adulto, num emprego (e cito): em que pontos gostas mais que te toquem? Já te masturbaste? Onde? Com quem? Imagina que chegaste a um país onde a maioria da população é homossexual (com o que eles sonham, meu Deus!), etc., etc. Se tal acontecesse, seria considerado - e bem - inadmissível.

Pois bem, esta gente que se esquece de pôr no programa a prevenção das doenças sexualmente transmissíveis, esta gente que destrói completamente a ideia de amor (ou de qualquer envolvimento emocional) nas relações sexuais, o que é um atentado a todas as pessoas saudáveis; esta gente que enche a boca com os direitos das crianças, nega-lhes, no entanto, um direito fundamental - o direito à privacidade e, dentro dessa privacidade, o direito de cada criança à descoberta do seu corpo e dos seus sentimentos e, mais tarde, do corpo e dos sentimentos de outros.

Parecem burocratas saídos do 1984 de George Orwell.

hmonteiro@mail.expresso.pt

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