Expresso - 21 Mai 05

A idade da inocência

«Há actividades que fazemos à luz do dia e em público - como comer - e outras que gostamos de fazer com recato.»

A EDUCAÇÃO sexual nas escolas, para lá da qualidade dos manuais por que se irá reger - alguns dos quais foram objecto de uma notícia do EXPRESSO na semana passada -, parte de um pressuposto aparentemente pacífico.

O pressuposto é este: se o sexo é uma coisa normal, se faz parte da vida - como comer ou dormir -, por que motivo não poderá falar-se dele abertamente?

Por que razão se falará sempre de sexo às escondidas, em surdina, como se fosse um crime, em vez de ser objecto de conversas francas e de debates na sala de aula?

Aparentemente esta argumentação é razoável.

E, no entanto, não poderia estar mais afastada da realidade.

A QUESTÃO é terrivelmente simples.

Há actividades que fazemos à luz do dia e em público - como comer - e outras que gostamos de fazer com recato.

Comer é uma actividade eminentemente social: toda a gente convida amigos para almoçar ou jantar; mas não é normal fazer-se sexo à frente de outras pessoas.

Quer isto dizer que nem tudo o que faz parte da vida pode ser objecto da mesma abordagem.

Cada um de nós precisa de preservar para si zonas de intimidade.

Em tudo o que se diz e faz há gradações: há coisas de que falamos e que fazemos abertamente, outras menos, outras nada.

Nos anos 50, na Suécia, entusiasmados com as ideias colectivistas, os arquitectos projectaram casas-de-banho em que as sanitas se alinhavam à volta de uma sala e as pessoas faziam as necessidades à frente umas das outras.

É claro que, ao fim de um tempo, verificou-se que a ideia era utópica - e arrepiou-se caminho.

MAS HÁ outra questão que a educação sexual nas escolas levanta.

Que tem que ver com a «idade da inocência».

Todos nós temos um período da nossa existência em que vivemos de forma inocente, em que fruímos do corpo sem pensar em sexo - e esse é um direito inalienável de cada um.

Esse período varia de pessoa para pessoa: a idade da perda da inocência não é a mesma para todos.

Ora, estabelecer um momento para falar às crianças das zonas erógenas, do prazer sexual, é limitar-lhes os direitos.

Cada um tem direito a descobrir por si a sua intimidade - não assistindo à sociedade o direito de impor um padrão comum.

Ao contrário do que certos teóricos defendem, não se pode - nem se deve - falar abertamente de tudo, pela mesmíssima razão de que não fazemos tudo abertamente, à luz do dia ou à frente uns dos outros.

Há, na nossa vida, zonas reservadas.

Zonas de sombra.

Quanto às crianças, deixemo-las viver tranquilamente a idade da inocência.

Na certeza de que não é daí que vêm os riscos: os comportamentos de risco têm causas sociais profundas e não decorrem da falta de informação.

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