A idade da inocência
«Há
actividades que fazemos à luz do dia e em público - como comer - e
outras que gostamos de fazer com recato.»
A EDUCAÇÃO sexual
nas escolas, para lá da qualidade dos manuais por que se irá reger -
alguns dos quais foram objecto de uma notícia do EXPRESSO na semana
passada -, parte de um pressuposto aparentemente pacífico.
O pressuposto é
este: se o sexo é uma coisa normal, se faz parte da vida - como
comer ou dormir -, por que motivo não poderá falar-se dele
abertamente?
Por que razão se
falará sempre de sexo às escondidas, em surdina, como se fosse um
crime, em vez de ser objecto de conversas francas e de debates na
sala de aula?
Aparentemente esta
argumentação é razoável.
E, no entanto, não
poderia estar mais afastada da realidade.
A QUESTÃO é
terrivelmente simples.
Há actividades que
fazemos à luz do dia e em público - como comer - e outras que
gostamos de fazer com recato.
Comer é uma
actividade eminentemente social: toda a gente convida amigos para
almoçar ou jantar; mas não é normal fazer-se sexo à frente de outras
pessoas.
Quer isto dizer que
nem tudo o que faz parte da vida pode ser objecto da mesma
abordagem.
Cada um de nós
precisa de preservar para si zonas de intimidade.
Em tudo o que se
diz e faz há gradações: há coisas de que falamos e que fazemos
abertamente, outras menos, outras nada.
Nos anos 50, na
Suécia, entusiasmados com as ideias colectivistas, os arquitectos
projectaram casas-de-banho em que as sanitas se alinhavam à volta de
uma sala e as pessoas faziam as necessidades à frente umas das
outras.
É claro que, ao fim
de um tempo, verificou-se que a ideia era utópica - e arrepiou-se
caminho.
MAS HÁ outra
questão que a educação sexual nas escolas levanta.
Que tem que ver com
a «idade da inocência».
Todos nós temos um
período da nossa existência em que vivemos de forma inocente, em que
fruímos do corpo sem pensar em sexo - e esse é um direito
inalienável de cada um.
Esse período varia
de pessoa para pessoa: a idade da perda da inocência não é a mesma
para todos.
Ora, estabelecer um
momento para falar às crianças das zonas erógenas, do prazer sexual,
é limitar-lhes os direitos.
Cada um tem direito
a descobrir por si a sua intimidade - não assistindo à sociedade o
direito de impor um padrão comum.
Ao contrário do que
certos teóricos defendem, não se pode - nem se deve - falar
abertamente de tudo, pela mesmíssima razão de que não fazemos tudo
abertamente, à luz do dia ou à frente uns dos outros.
Há, na nossa vida,
zonas reservadas.
Zonas de sombra.
Quanto às crianças,
deixemo-las viver tranquilamente a idade da inocência.
Na certeza de que
não é daí que vêm os riscos: os comportamentos de risco têm causas
sociais profundas e não decorrem da falta de informação.