Público - 26 Mai 05

Ensinar o quê?

Eduardo Prado Coelho o fio do horizonte

Trata-se, como é óbvio, de uma questão extremamente delicada. No que diz respeito à educação sexual, é díficil encontrar o tom justo. Mais do que em relação a quaisquer outras matérias, a questão daqueles que ensinam é decisiva. A relação pessoal é sempre importante, mas, quando nos ocupamos de educação sexual, é imprescindível uma relação de confiança. Algo próximo do que os psicanalistas chamam uma relação transferencial: é necessário que o aluno veja no professor aquele que é suposto saber, e que, por maior que seja o número de informações que transmite, nunca chegará a dizer o que sabe por inteiro - ficará sempre um resto que tem que ver com a sabedoria da vida. Nas actuais condições do ensino, não é fácil criar este tipo de relações - até porque o número da alunos cria uma atmosfera propícia ao desatino, à troça, ao riso boçal, à insinuação torpe.
Neste plano, há várias sugestões de Daniel Sampaio que parecem acertadas. A primeira visa envolver a educação sexual numa área curricular de Educação para a Saúde, abandonando o projecto utópico de uma dispersão por diversas disciplinas, conforme a combinatória que em cada escola se define.
A educação sexual provoca, como todas as conversas sobre as matérias amorosas, um riso nervoso. É sinal de que se toca em motivações íntimas e que toda a cautela é indispensável. Mas há os casos de ignorância de informações essenciais, com consequências por vezes desastrosas, principalmente no domínio da gravidez inoportuna. Parece evidente que uma preparação para os afectos em geral faz parte de uma disciplina que tenha em conta o equilíbrio psicológico, mas aqui também a literatura ou o cinema são certamente um instrumento extraordinário.
Embora o Expresso publique um desmentido formal do Ministério da Educação, explicando que não há programa oficial e não existem manuais, que "as estratégias e imagens publicadas que o Expresso fez passar não pertencem a materiais do Ministério da Educação", Henrique Monteiro e o editorial do jornal funcionam como se tais esclarecimentos não existissem. Henrique Monteiro proclama que se trata de "um escândalo" e vê nisto "um ataque às crianças". Suspeita-se que para Henrique Monteiro tudo o que seja informação sexual é um atentado à infância e adolescência. Ele parece ter uma fruição libidinal no acto de se indignar. Utilizando gravuras que pertencem a um manual espanhol mencionado na bibliografia de um guia intitulado Educação Sexual na Escola, o Expresso explora a indignação fácil e o conservadorismo mental e moral.
Registe-se o editorial a que se chama A idade da inocência. O que nos espanta é que se conceba um paraíso dos afectos juvenis e infantis sem qualquer sexualidade. Verifica-se que Freud e a psicanálise não passaram por aqui. Mas já conviveram com adolescentes? Já ouviram as conversas de adolescentes? Talvez pudessem concluir que, se todos os afectos têm componentes sexuais, há uma sexualidade que existe separada da relação amorosa - como se sabe desde o princípio do mundo. Procurar que essa sexualidade seja vivida a dois é algo de positivo, mas nem sempre inteiramente realizável. Basta ver o que se passa em concertos ou discotecas portuguesas. Culpa do relativismo. Claro, que tem ideias curtas e costas largas... Professor universitário

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