Público - 26 Mai 05

 

Um caso sério

Pedro Strech

A sexualidade e as suas vivências são um assunto tão sério que, de verdade, deveria ser pensado o que fazer para melhor ajudarmos os mais novos a vivê-la saudavelmente. Sobretudo quando a realidade portuguesa indica números muito dolorosos para que, de verdade, ninguém faça nada

Foi com bastante espanto que muitos profissionais da área da infância e da adolescência acolheram as notícias recentemente vindas a público num semanário sobre as experiências-piloto levadas a cabo em algumas escolas a propósito da introdução de uma disciplina de Educação Sexual para alunos de 2.º ciclo (5.º e 6.º anos de escolaridade), ou seja, para rapazes e raparigas de idades compreendidas entre os 10 e os 12 anos de idade. Fazendo capa com essa notícia, pudemos ver como, partindo de desenhos de um rapaz e uma rapariga, despidos, a tocarem nos seus órgãos sexuais, se colocavam perguntas alusivas à masturbação, do género: "Que estão a fazer? Já alguma fez fizeste isso? Onde? Com quem?" Seguiam-se depois outros exemplos dignos de nota: num, sugeria-se que, sobre o referido desenho, se pintasse de vermelho "zonas do corpo que gostas que sejam tocadas" e noutro ainda sugeria-se que os alunos escrevessem todos os sinónimos conhecidos de "pénis, testículos e vagina", esperando-se que depois se afixassem os resultados num placard da sala de aula.
O comentário é inevitável e rápido: não sabemos de quem foi a ideia, mas se esta é a proposta para actividades de educação sexual em crianças desta idade, então só resta dizer que é melhor estar quieto, porque assim não.
O desenvolvimento da sexualidade é uma construção que se inicia muito precocemente na vida de cada um: aliás, ela inicia-se ainda antes de um bebé nascer por aquilo que um futuro pai ou mãe projecta para aquela criança. Não são inéditas situações de pais que abandonam mulheres porque não conseguem ter um filho rapaz, mulheres que dizem não querer uma menina porque isso lhes lembra as suas mães, da mesma forma que são comuns os casos em que se escolhe determinado nome porque a ele se associa uma figura familiar de grande relevo emocional ou para manter um registo que é comum, numa perspectiva de ligação e continuidade. Também não é à toa que os meninos são vestidos predominantemente de azul e as raparigas de cor-de-rosa, e que o conhecimento antecipado do sexo do bebé (para os pais que o querem ouvir no decorrer de uma das ecografias de rotina) permite a adaptação entre um bebé imaginado e um bebé real.
Depois, mais crescidas, as crianças apreendem os primeiros modelos de relação sexual e afectiva através das vivências dos adultos que lhes estão próximos, que interiorizam individualmente e em ligação como modelos, com todas as partes boas e más que cada um tem e acarreta. Nesse aspecto, é importante também a própria diferenciação dos espaços, em que a especificidade do quarto dos pais simboliza a intimidade e a privacidade, bem como a distanciação entre o mundo de adultos e de crianças e adolescentes que, obviamente, não têm acesso às mesmas vivências; a fantasia e o desejo organizam-se a partir do desconhecido e do interdito. Por último, já adolescentes, é que começam então a viver uma sexualidade ditada pelo primado da genitalidade, quer dizer, mais próxima daquilo que será um futuro padrão adulto.
Por acaso, o desconhecido e o interdito são pontos que, hoje em dia, são muito facilmente ultrapassados: os mais novos recebem tanta informação específica sobre temas de sexualidade e a ela têm tão facilmente acesso através da televisão e da Internet que escusado será dizer que, em muitos, o mais que se assiste é a uma morte precoce do desejo e da fantasia. Quando assim é, o que resta (e é tão fácil de perceber!) é pouco de mais para ser verdade: um esvaziamento precoce do encanto da descoberta da sexualidade leva, inevitavelmente, a adultos descontentes com o amor e com o sexo, acabando por não tirar prazer íntimo da mais importante área do bem-estar individual e social. Quem está bem na sua vida amorosa e sexual está bem em (quase) tudo, isto é, tem uma fonte de energia psíquica muito mais forte e ampla para viver e enfrentar todos os aspectos positivos e negativos do dia-a-dia. E o oposto é igualmente verdadeiro e são disso exemplo casos de perturbações emocionais como algumas neuroses, depressões, somatizações (a expressão no corpo do descontentamento da mente), comportamentos autodestrutivos (como o consumo de álcool) e, claro está, algumas perversões sexuais.
Pela frequência actual, destacamos nos mais novos a importância da televisão e da Internet como os dois mais fortes veículos de uma exposição sexual que, se maciça e desintegrada de outras vivências afectivas de qualidade (nomeadamente as que implicam uma possibilidade de para-excitação), pode produzir fortes ataques à integridade psíquica de crianças e adolescentes. Todos sabemos distinguir uma normal e saudável curiosidade que é bom existir, de casos como os de meninos que, bombardeados pelas imagens dos canais pornográficos da TV por cabo (quantos não têm TV no quarto, quantos não ouvem amigos, irmãos mais velhos, familiares, falar disso?,) não têm nem capacidade física nem maturidade emocional para digerir psiquicamente aquilo a que têm acesso e, por isso, sofrem com isso, ou daqueles que passam horas em frente dos sites pornográficos, isolados, sozinhos face a imagens de uma sexualidade quase sempre distorcida, em vez de ousarem o contacto relacional com outro(s) de idades próximas? Que fantasiam estes rapazes e raparigas? E, sobre o que fantasiam, como o agem na realidade, quer dizer, que uso dão a isso nas suas vidas diárias? Como afecta isso "as partes que gostam que sejam tocadas" ou "o que fazem, onde fazem e com quem fazem"?
A sexualidade e as suas vivências são um assunto tão sério que, de verdade, deveria ser pensado o que fazer para melhor ajudarmos os mais novos a vivê-la saudavelmente. Sobretudo quando a realidade portuguesa indica números muito dolorosos para que, de verdade, ninguém faça nada: primeiros da União Europeia na taxa de maternidade adolescente, o mesmo lugar na taxa de infectados pelo vírus da sida, número não contabilizável de abortos como forma de contracepção e sem que, em nenhum dos exemplos referidos, rapazes ou raparigas recebam suporte emocional minimamente digno. Que faz da sua vida uma rapariga que é mãe aos 15 anos de idade e um rapaz que é pai aos 16 anos? E aquela que aborta sozinha, nas piores condições imagináveis, sem suporte familiar ou social que a ampare? E, se existir um futuro bebé, não dá ainda para perceber que tudo o que desde logo se passar vai marcar a sua própria vida e, dentro dela, a vivência da sua sexualidade? É que, quando nasce uma criança, há sempre uma história de três gerações que está presente no quarto de uma enfermaria: a do recém-nascido, a dos seus pais e, nestes, aquilo que em fantasia ou na realidade os seus próprios pais lhes deixaram...
A sexualidade é um caso sério de mais para ser tratado da forma banal, crua, desadequada, patética mesmo, como nos exemplos referidos. E, mais importante ainda: enquanto se continuar a falar deste tema desenquadrado do amor (amor próprio, amor pelo outro), será muito difícil chegar a algum lado significativo. E, sobretudo, enquanto se fechar os olhos à noção de que a sexualidade é, essencialmente, resultado de um profundo diálogo interno, onde são as emoções e os afectos longamente vividos e experienciados que determinam os respectivos comportamentos, andaremos a pintar de negro (e não de vermelho) as vidas, corpos e mentes,de muitos rapazes e raparigas. E disso já se vê que baste de muito mal-estar. Pedopsiquiatra

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