A estatização dos
afectos
Manuel Brás
As reacções violentas da
APF ao escândalo nacional provocado pela simples
divulgação dos materiais com que o Ministério da
Educação (ME) brinda os professores em matéria de
“educação sexual”, por indicação dessa mesma associação,
resumem-se a este termo: a táctica da negação.
Eles negam, mas
está lá tudo. É só ver manuais e bibliografia. Eles
negam que textos, desenhos, propostas de actividades lá
estejam, mas estão. E se o que lá está não é para
transmitir aos alunos, então é para quê? Será que a APF,
que assessora o ME, professores, políticos, nesta
matéria, subitamente, já não tem nada a ver com isto?
Será que a APF já não é a APF? Onde estão os seus
responsáveis? Onde estão os milhares de professores
formados pela APF para pôr em prática tais conteúdos?
Que andarão eles a fazer por esse País fora? Como vai o
Estado resolver (mais) este problema?
À táctica da
negação segue-se o controle da indignação.
Qual a ideia de
fundo que está por trás deste conceito de “educação
sexual”?
Nada de novo.
As mesmas utopias de sempre.
A crença no
bom selvagem. É simples: a sociedade, com a sua
moral e instituições, puras construções sociais e
históricas, contrárias e repressoras da original bondade
humana, impôs restrições, coarctou liberdades,
desvirtuou o humano.
É como se algo
tivesse sucedido na História que obscureceu a candura
primordial (a prisão espiritual da religião, o
dinheiro,...). Daí que seja preciso resgatar o homem
novo. Tarefa que um punhado de iluminados leva a
cabo com galhardia desde há duas centúrias para cá. É
preciso desconstruir todas as estruturas sociais,
regras, tabus, para que os humanos possam voltar ao
estado primordial e indígena.
Assim como
outrora nos prometeram o paraíso na terra – a sociedade
sem classes – e o homem novo, através da luta de classes
e do rumo para o socialismo, hoje prometem-nos essas
mesmas utopias pela via da “libertação individual”,
particularmente através do sexo.
Desta forma, a
educação sexual é o veículo para libertar os indivíduos
de milhares de anos de obscurantismo, de discriminação e
desigualdade, de sexo masculino e feminino, de gravidez
e maternidade, de tabus e proibições, enfim, o veículo
para negar tudo o que nos trouxe até aqui.
Tendo por
assente que todos os que viveram antes de nós,
exceptuando a recente casta de iluminados, são estúpidos
e retrógrados, urge libertar os jovens, vítimas de tão
grandes atrocidades da História. Para alcançar o
nirvana as pobres crianças têm que ser purgadas
mediante a exposição pública em sede de aula das suas
intimidades, que passam a assim a pertencer ao domínio
público. Ou seja, deixam de ter intimidade própria. Como
as “Linhas Orientadoras de Educação Sexual em Meio
Escolar” são da responsabilidade do ME que, supomos,
pertence ao Estado, aí temos nós a estatização dos
afectos e da sexualidade com honras de doutrina oficial.
Como outrora se
fez com bancos e empresas.
No reino da
“educação sexual” pode-se tudo, menos aceitar registos
obscurantistas como a gravidez e a maternidade.