Diário de Notícias - 26 Mai 05

 

A estatização dos afectos

Manuel Brás

 

As reacções violentas da APF ao escândalo nacional provocado pela simples divulgação dos materiais com que o Ministério da Educação (ME) brinda os professores em matéria de “educação sexual”, por indicação dessa mesma associação, resumem-se a este termo: a táctica da negação.

            Eles negam, mas está lá tudo. É só ver manuais e bibliografia. Eles negam que textos, desenhos, propostas de actividades lá estejam, mas estão. E se o que lá está não é para transmitir aos alunos, então é para quê? Será que a APF, que assessora o ME, professores, políticos, nesta matéria, subitamente, já não tem nada a ver com isto? Será que a APF já não é a APF? Onde estão os seus responsáveis? Onde estão os milhares de professores formados pela APF para pôr em prática tais conteúdos? Que andarão eles a fazer por esse País fora? Como vai o Estado resolver (mais) este problema?

            À táctica da negação segue-se o controle da indignação.

            Qual a ideia de fundo que está por trás deste conceito de “educação sexual”?

            Nada de novo. As mesmas utopias de sempre.

            A crença no bom selvagem. É simples: a sociedade, com a sua moral e instituições, puras construções sociais e históricas, contrárias e repressoras da original bondade humana, impôs restrições, coarctou liberdades, desvirtuou o humano.

            É como se algo tivesse sucedido na História que obscureceu a candura primordial (a prisão espiritual da religião, o dinheiro,...). Daí que seja preciso resgatar o homem novo. Tarefa que um punhado de iluminados leva a cabo com galhardia desde há duas centúrias para cá. É preciso desconstruir todas as estruturas sociais, regras, tabus, para que os humanos possam voltar ao estado primordial e indígena.

            Assim como outrora nos prometeram o paraíso na terra – a sociedade sem classes – e o homem novo, através da luta de classes e do rumo para o socialismo, hoje prometem-nos essas mesmas utopias pela via da “libertação individual”, particularmente através do sexo.

            Desta forma, a educação sexual é o veículo para libertar os indivíduos de milhares de anos de obscurantismo, de discriminação e desigualdade, de sexo masculino e feminino, de gravidez e maternidade, de tabus e proibições, enfim, o veículo para negar tudo o que nos trouxe até aqui.

            Tendo por assente que todos os que viveram antes de nós, exceptuando a recente casta de iluminados, são estúpidos e retrógrados, urge libertar os jovens, vítimas de tão grandes atrocidades da História. Para alcançar o nirvana as pobres crianças têm que ser purgadas mediante a exposição pública em sede de aula das suas intimidades, que passam a assim a pertencer ao domínio público. Ou seja, deixam de ter intimidade própria. Como as “Linhas Orientadoras de Educação Sexual em Meio Escolar” são da responsabilidade do ME que, supomos, pertence ao Estado, aí temos nós a estatização dos afectos e da sexualidade com honras de doutrina oficial.

            Como outrora se fez com bancos e empresas.

            No reino da “educação sexual” pode-se tudo, menos aceitar registos obscurantistas como a gravidez e a maternidade.

[anterior]