Notícias menos boas Menos boas são as
notícias acerca dos principais argumentos utilizados pelo
«sim» e pelo «não». Ambos se centram na chamada «ameaça
liberal anglo-saxónica». Os opositores da Constituição dizem
que ela exprime a submissão da França à lógica liberal
anglo-saxónica. Os defensores da Constituição respondem que,
pelo contrário, ela representa a derradeira esperança de
consagrar os princípios da França contra a mesma ameaça.
Há aqui uma ironia algo preocupante. Ambos os argumentos
são profundamente nacionalistas, incluindo os que defendem a
Constituição e uma Europa supranacional. Isso não surpreende
aqueles que, como o autor destas linhas, têm argumentado
contra o sonho irrealista de construir a União Europeia ao
arrepio das soberanias nacionais. Mas há uma faceta
preocupante nesta ironia: que a identidade nacional francesa
esteja a ser quase exclusivamente definida por oposição ao
chamado «liberalismo anglo-saxónico».
Notícias preocupantes Este comportamento
da França torna-se mais preocupante quando comparado com o
que se está a passar na Alemanha. Franz Muntefering,
presidente do partido social-democrata, lançou recentemente
uma campanha contra os investidores estrangeiros,
comparando-os a uma praga de gafanhotos que devoram a
economia alemã. Para os que não sabem, esta foi precisamente
a imagem usada pelos nazis alemães - o Partido
Nacional-socialista dos Trabalhadores Alemães - na negra
década de 1930. Não contente com isso, Muntefering publicou
em seguida uma lista de nomes desses «gafanhotos», quase
todos americanos e… judeus. Como talvez todos saibam, era um
hábito dos nazis publicar listas de nomes judeus.
É óbvio que Muntefering não é um saudosista do nazismo.
Ele é simplesmente um político, inadequadamente educado, que
utiliza o que tem à mão para manter o emprego e ganhar
votos. Apesar destes truques, Muntefering não conseguiu
evitar a derrota do SPD nas eleições estaduais de domingo.
Vale a pena ler A este respeito, vale a
pena ler o artigo de Wolfgang Munchau, do «Financial Times»,
na revista «The Spectator» da semana passada. Com o
sugestivo título Anti-Americanism,
anti-Semitism, anti-Capitalism, o autor mostra como um
estranho caldo de cultura está a emergir na Alemanha e em
França. O fenómeno é particularmente intrigante porque
atravessa as famílias políticas, gerando uma comum
hostilidade contra não se sabe bem o quê. Munchau diz que se
trata sobretudo de um ressentimento produzido pela
estagnação das economias dos dois países. Como todos os
ressentimentos, este inventa bodes expiatórios para
descartar as responsabilidades próprias. No caso vertente,
os bodes expiatórios são os americanos, os judeus e o
chamado capitalismo.
Ideias têm consequências O artigo de
Munchau ganha em ser lido em conjunto com o último livro de
John Lukacs, Democracy and Populism: Fear and
Hatred (New Haven & London: Yale University Press,
2005). O distinto historiador recorda que a democracia
liberal hoje triunfante era vista com desprezo na Europa na
primeira metade do século XX. Com excepção dos povos de
língua inglesa, a democracia era vista como uma alternativa
perdedora face a dois poderosos rivais: o
nacional-socialismo e o comunismo. Quais eram os grandes
inimigos do nacional-socialismo e do comunismo? Lukacs
recorda-nos: era o chamado liberalismo anglo-saxónico, o
capitalismo internacional, e os judeus que alegadamente o
dirigiam.
Blair soma e segue Enquanto a Alemanha e
a França se distraem com inimigos imaginários, o
primeiro-ministro inglês escolhe inimigos reais. No discurso
da Rainha, a tradicional apresentação do programa do
primeiro-ministro, Sua Majestade apresentou como prioridade
a restauração de «uma cultura de respeito» no Reino Unido.
Os inimigos, aqui, são bem reais: o crime e a insegurança
nas ruas, a indisciplina nas escolas, a má-criação e a
grosseria, a erosão das maneiras que sempre distinguiram os
ingleses.
Depois de aqui ter escrito, há algumas semanas, um artigo
sobre «a Inglaterra que já não é», mal posso acreditar que o
primeiro ministro-britânico tenha escolhido como sua
prioridade a restauração das maneiras. Mas a verdade é que
escolheu. Os conservadores acusam-no de ter roubado, mais
uma vez, as ideias dos conservadores. As ideias, todavia,
são basicamente boas ou más, antes de pertencerem a este ou
aquele. E Tony Blair voltou a ser capaz de agarrar uma boa
ideia: restabelecer uma cultura de respeito.
Educação sexual nas escolas A ideia
aplica-se como uma luva ao recente debate sobre a educação
sexual nas nossas escolas. O inenarrável manual, que o
EXPRESSO em boa hora divulgou, é apenas uma grosseira
expressão de uma cultura de desrespeito: em primeiro lugar,
desrespeito pela privacidade do envolvimento sexual, como
civilizadamente recordou aos bárbaros o director deste
jornal; desrespeito, depois, pelo direito das famílias a
educarem os seus filhos com padrões civilizados.