Expresso - 28 Mai 05

 

Mar Aberto

João Carlos Espada

Uma cultura de respeito

«Tony Blair apresentou como prioridade a restauração de uma 'cultura de respeito'. Eis uma boa ideia, também para a educação sexual nas nossas escolas.»

Boas notícias Saberemos amanhã a decisão dos franceses acerca da chamada Constituição europeia. Duas coisas simpáticas podem desde já ser ditas. Em primeiro lugar, que a França está de parabéns por ter finalmente albergado uma discussão aberta sobre a União Europeia. Em segundo lugar, que o projecto europeu poderá sair reforçado. Quer ganhe o «sim» quer o «não», o debate já mostrou que os dois campos são largamente representativos. Em democracia, isso quer dizer que o projecto europeu só pode consolidar-se se aceitar esse equilíbrio e souber alimentar um compromisso fundado na moderação. 

Notícias menos boas Menos boas são as notícias acerca dos principais argumentos utilizados pelo «sim» e pelo «não». Ambos se centram na chamada «ameaça liberal anglo-saxónica». Os opositores da Constituição dizem que ela exprime a submissão da França à lógica liberal anglo-saxónica. Os defensores da Constituição respondem que, pelo contrário, ela representa a derradeira esperança de consagrar os princípios da França contra a mesma ameaça.

Há aqui uma ironia algo preocupante. Ambos os argumentos são profundamente nacionalistas, incluindo os que defendem a Constituição e uma Europa supranacional. Isso não surpreende aqueles que, como o autor destas linhas, têm argumentado contra o sonho irrealista de construir a União Europeia ao arrepio das soberanias nacionais. Mas há uma faceta preocupante nesta ironia: que a identidade nacional francesa esteja a ser quase exclusivamente definida por oposição ao chamado «liberalismo anglo-saxónico».

Notícias preocupantes Este comportamento da França torna-se mais preocupante quando comparado com o que se está a passar na Alemanha. Franz Muntefering, presidente do partido social-democrata, lançou recentemente uma campanha contra os investidores estrangeiros, comparando-os a uma praga de gafanhotos que devoram a economia alemã. Para os que não sabem, esta foi precisamente a imagem usada pelos nazis alemães - o Partido Nacional-socialista dos Trabalhadores Alemães - na negra década de 1930. Não contente com isso, Muntefering publicou em seguida uma lista de nomes desses «gafanhotos», quase todos americanos e… judeus. Como talvez todos saibam, era um hábito dos nazis publicar listas de nomes judeus.

É óbvio que Muntefering não é um saudosista do nazismo. Ele é simplesmente um político, inadequadamente educado, que utiliza o que tem à mão para manter o emprego e ganhar votos. Apesar destes truques, Muntefering não conseguiu evitar a derrota do SPD nas eleições estaduais de domingo.

Vale a pena ler A este respeito, vale a pena ler o artigo de Wolfgang Munchau, do «Financial Times», na revista «The Spectator» da semana passada. Com o sugestivo título Anti-Americanism, anti-Semitism, anti-Capitalism, o autor mostra como um estranho caldo de cultura está a emergir na Alemanha e em França. O fenómeno é particularmente intrigante porque atravessa as famílias políticas, gerando uma comum hostilidade contra não se sabe bem o quê. Munchau diz que se trata sobretudo de um ressentimento produzido pela estagnação das economias dos dois países. Como todos os ressentimentos, este inventa bodes expiatórios para descartar as responsabilidades próprias. No caso vertente, os bodes expiatórios são os americanos, os judeus e o chamado capitalismo.

Ideias têm consequências O artigo de Munchau ganha em ser lido em conjunto com o último livro de John Lukacs, Democracy and Populism: Fear and Hatred (New Haven & London: Yale University Press, 2005). O distinto historiador recorda que a democracia liberal hoje triunfante era vista com desprezo na Europa na primeira metade do século XX. Com excepção dos povos de língua inglesa, a democracia era vista como uma alternativa perdedora face a dois poderosos rivais: o nacional-socialismo e o comunismo. Quais eram os grandes inimigos do nacional-socialismo e do comunismo? Lukacs recorda-nos: era o chamado liberalismo anglo-saxónico, o capitalismo internacional, e os judeus que alegadamente o dirigiam.

Blair soma e segue Enquanto a Alemanha e a França se distraem com inimigos imaginários, o primeiro-ministro inglês escolhe inimigos reais. No discurso da Rainha, a tradicional apresentação do programa do primeiro-ministro, Sua Majestade apresentou como prioridade a restauração de «uma cultura de respeito» no Reino Unido. Os inimigos, aqui, são bem reais: o crime e a insegurança nas ruas, a indisciplina nas escolas, a má-criação e a grosseria, a erosão das maneiras que sempre distinguiram os ingleses.

Depois de aqui ter escrito, há algumas semanas, um artigo sobre «a Inglaterra que já não é», mal posso acreditar que o primeiro ministro-britânico tenha escolhido como sua prioridade a restauração das maneiras. Mas a verdade é que escolheu. Os conservadores acusam-no de ter roubado, mais uma vez, as ideias dos conservadores. As ideias, todavia, são basicamente boas ou más, antes de pertencerem a este ou aquele. E Tony Blair voltou a ser capaz de agarrar uma boa ideia: restabelecer uma cultura de respeito.

Educação sexual nas escolas A ideia aplica-se como uma luva ao recente debate sobre a educação sexual nas nossas escolas. O inenarrável manual, que o EXPRESSO em boa hora divulgou, é apenas uma grosseira expressão de uma cultura de desrespeito: em primeiro lugar, desrespeito pela privacidade do envolvimento sexual, como civilizadamente recordou aos bárbaros o director deste jornal; desrespeito, depois, pelo direito das famílias a educarem os seus filhos com padrões civilizados.

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