Como ser Governo em 10 passos
«Mas os referendos
explicam muito: explicam como uma Europa cansada se olha
ao espelho. E não gosta do que vê.»
GOSTO do eng. Sócrates: ele cumpre, com rigor e
elegância, os passos clássicos do governo português
democrático. O filme é conhecido e a técnica, de tão
gasta, pode cansar alguns espectadores. Também pode
horrorizar algumas almas mais sensíveis, sobretudo
crianças de todas as idades, pelo que se recomenda
acompanhamento paterno. Para os restantes, aqui ficam os
dez momentos decisivos sobre a arte de governar
Portugal.
Primeiro passo: aparecer aos
eleitores e, com total conhecimento do descalabro
económico do país, prometer o fim do deserto e o início
do paraíso. Utilizar linguagem psiquiátrica -
«optimismo», «confiança» - para evitar que os lunáticos
saltem antes do tempo.
Segundo passo: ganhar eleições e,
durante uns meses, hibernar; os lunáticos aguardam no
parapeito do asilo.
Terceiro passo: ouvir a realidade
bater à porta; acordar; abrir a porta à realidade (a
contragosto).
Quarto passo: convocar os
jornalistas; simular horror e pasmo com «a situação
grave que o país atravessa»; culpar o antigo inquilino.
Alguns especialistas aconselham desmaio e gritos. Alguns
lunáticos dão finalmente o salto (em colunas de jornal).
Quinto passo: «Portugueses: afinal, o
paraíso...»
Sexto passo: assaltar o bolso dos
contribuintes.
Sétimo passo: prometer medidas sérias
para reduzir a gordura do Estado.
Oitavo passo: não reduzir o peso do
Estado.
Nono passo: ir governando.
Décimo passo: perder eleições ou
abandonar o barco; entregar a chave; partir sem destino
certo. (Ajudar os refugiados, serve; chefiar a Comissão
Europeia, também.)
Ao novo governo, cabe-lhe apenas regressar ao início
e cumprir a receita sem pressas nem sobressaltos.
Nunca falha.
Espelho meu
PRIMEIRO, foi 1789. Depois, 1968. E, agora, 2005: os
franceses adoram fazer birra. Não que o tratado
constitucional não mereça chumbo exemplar. Mas,
honestamente, quem leu a «constituição» europeia? Quem,
no fundo, leu trezentas páginas de inutilidade? Pouco
importa. No domingo, se o «não» ganhar (possível), os
franceses dirão «não» a tudo, excepto a um texto que
desconhecem. Dirão «não» a uma classe política corrupta
e pomposa; dirão «não» ao desemprego sério que não sai
dos 10%; dirão «não» à Europa; dirão «não» à Turquia na
Europa; dirão «não» ao mundo; e, no essencial, dirão
«não» ao papel da França no mundo. Em 1950, quando a
Comunidade iniciou caminho, uma França humilhada pela
guerra acreditava que só um clube comum podia devolver a
Paris a sua intocável vocação messiânica. Cinquenta anos
depois, o filme terminou como terminou. Em farsa. A
França está mergulhada numa mistura de medo e
frustração.
Aliás, não apenas a França: no próximo dia 1, os
holandeses também se preparam, mais seriamente, para
rejeitar o tratado. Porquê? Duas palavras: «festival» e
«canção». Ou, para os íntimos, «Eurovisão». Facto:
depois dos ABBA, com «Waterloo», o certame converteu-se
em símbolo espúrio da decadência europeia. Mas o
problema dos holandeses não é musical; é nacional. E as
canções deste ano, para a opinião doméstica,
demonstraram apenas como os países de Leste não são de
confiança: eles protegem-se mutuamente na cantoria,
votam nos vizinhos sem um pingo de vergonha - e esta
atitude, que afastou a representante holandesa das
meias-finais, é uma lição de aviso para o futuro do
continente. Como é possível uma Europa comum quando os
recém-chegados só gostam de cantar uns para os outros?
Sim, esta pergunta dominou o país. E, não, o excesso
de haxixe não explica tudo. Mas os referendos explicam
muito: explicam como uma Europa cansada se olha ao
espelho. E não gosta do que vê.
Um começo é um começo
É SÓ rir: o EXPRESSO publica notícia grave sobre a
educação sexual nas escolas (um tema que, por si só,
devia encher vários estádios) e o país sai em cortejo,
indignado com os pormenores da coisa. Que ingratidão. De
acordo com o jornal, os manuais que circulam por aí
convidam os alunos (menores, entenda-se) a colorirem com
afinco (no papel, perceba-se) as partes do corpo onde
gostam de ser tocados. A ideia é explorar a sexualidade
dos petizes, sem «culpas» e sem «tabus», convite que, em
tempos arcaicos, costumava dar cadeia. Não mais. O corpo
deve ser tratado com «naturalidade», o que
necessariamente implica que os discentes devem ser
instruídos pelas docentes sobre a prática ancestral da
masturbação. Os manuais, porém, são omissos sobre a
autoria material do acto. Mais debate, exige-se.
Como se exigem mais cartas de especialistas, à imagem
do que sucedeu na última edição. Um exemplo? Duarte
Vilar, sociólogo e autor de bibliografia adequada,
desmente vigorosamente a notícia e esclarece os pais que
não cabe à escola ensinar a prática. A proposta, no
fundo, é outra: «se tal actividade for
realizada em público, os educadores devem interferir, de
forma delicada, no sentido de ela ser feita na
privacidade». No mundo do dr. Vilar, os nossos
alunos entregam-se furiosamente ao vício, em plena sala
de aula, perante o olhar do professor pasmado. Eu, por
mim, apoio o dr. Vilar. O ideal, aliás, seria que as
nossas crianças também deixassem de o fazer em praças e
cafés. Mas um começo é um começo.
jpcoutinho@jpcoutinho.com