Expresso - 28 Mai 05

 

Estado Crítico

João Pereira Coutinho

Como ser Governo em 10 passos

 «Mas os referendos explicam muito: explicam como uma Europa cansada se olha ao espelho. E não gosta do que vê.»

GOSTO do eng. Sócrates: ele cumpre, com rigor e elegância, os passos clássicos do governo português democrático. O filme é conhecido e a técnica, de tão gasta, pode cansar alguns espectadores. Também pode horrorizar algumas almas mais sensíveis, sobretudo crianças de todas as idades, pelo que se recomenda acompanhamento paterno. Para os restantes, aqui ficam os dez momentos decisivos sobre a arte de governar Portugal.

Primeiro passo: aparecer aos eleitores e, com total conhecimento do descalabro económico do país, prometer o fim do deserto e o início do paraíso. Utilizar linguagem psiquiátrica - «optimismo», «confiança» - para evitar que os lunáticos saltem antes do tempo.

Segundo passo: ganhar eleições e, durante uns meses, hibernar; os lunáticos aguardam no parapeito do asilo.

Terceiro passo: ouvir a realidade bater à porta; acordar; abrir a porta à realidade (a contragosto).

Quarto passo: convocar os jornalistas; simular horror e pasmo com «a situação grave que o país atravessa»; culpar o antigo inquilino. Alguns especialistas aconselham desmaio e gritos. Alguns lunáticos dão finalmente o salto (em colunas de jornal).

Quinto passo: «Portugueses: afinal, o paraíso...»

Sexto passo: assaltar o bolso dos contribuintes.

Sétimo passo: prometer medidas sérias para reduzir a gordura do Estado.

Oitavo passo: não reduzir o peso do Estado.

Nono passo: ir governando.

Décimo passo: perder eleições ou abandonar o barco; entregar a chave; partir sem destino certo. (Ajudar os refugiados, serve; chefiar a Comissão Europeia, também.)

Ao novo governo, cabe-lhe apenas regressar ao início e cumprir a receita sem pressas nem sobressaltos.

Nunca falha.

Espelho meu

PRIMEIRO, foi 1789. Depois, 1968. E, agora, 2005: os franceses adoram fazer birra. Não que o tratado constitucional não mereça chumbo exemplar. Mas, honestamente, quem leu a «constituição» europeia? Quem, no fundo, leu trezentas páginas de inutilidade? Pouco importa. No domingo, se o «não» ganhar (possível), os franceses dirão «não» a tudo, excepto a um texto que desconhecem. Dirão «não» a uma classe política corrupta e pomposa; dirão «não» ao desemprego sério que não sai dos 10%; dirão «não» à Europa; dirão «não» à Turquia na Europa; dirão «não» ao mundo; e, no essencial, dirão «não» ao papel da França no mundo. Em 1950, quando a Comunidade iniciou caminho, uma França humilhada pela guerra acreditava que só um clube comum podia devolver a Paris a sua intocável vocação messiânica. Cinquenta anos depois, o filme terminou como terminou. Em farsa. A França está mergulhada numa mistura de medo e frustração.

Aliás, não apenas a França: no próximo dia 1, os holandeses também se preparam, mais seriamente, para rejeitar o tratado. Porquê? Duas palavras: «festival» e «canção». Ou, para os íntimos, «Eurovisão». Facto: depois dos ABBA, com «Waterloo», o certame converteu-se em símbolo espúrio da decadência europeia. Mas o problema dos holandeses não é musical; é nacional. E as canções deste ano, para a opinião doméstica, demonstraram apenas como os países de Leste não são de confiança: eles protegem-se mutuamente na cantoria, votam nos vizinhos sem um pingo de vergonha - e esta atitude, que afastou a representante holandesa das meias-finais, é uma lição de aviso para o futuro do continente. Como é possível uma Europa comum quando os recém-chegados só gostam de cantar uns para os outros?

Sim, esta pergunta dominou o país. E, não, o excesso de haxixe não explica tudo. Mas os referendos explicam muito: explicam como uma Europa cansada se olha ao espelho. E não gosta do que vê.

Um começo é um começo

É SÓ rir: o EXPRESSO publica notícia grave sobre a educação sexual nas escolas (um tema que, por si só, devia encher vários estádios) e o país sai em cortejo, indignado com os pormenores da coisa. Que ingratidão. De acordo com o jornal, os manuais que circulam por aí convidam os alunos (menores, entenda-se) a colorirem com afinco (no papel, perceba-se) as partes do corpo onde gostam de ser tocados. A ideia é explorar a sexualidade dos petizes, sem «culpas» e sem «tabus», convite que, em tempos arcaicos, costumava dar cadeia. Não mais. O corpo deve ser tratado com «naturalidade», o que necessariamente implica que os discentes devem ser instruídos pelas docentes sobre a prática ancestral da masturbação. Os manuais, porém, são omissos sobre a autoria material do acto. Mais debate, exige-se.

Como se exigem mais cartas de especialistas, à imagem do que sucedeu na última edição. Um exemplo? Duarte Vilar, sociólogo e autor de bibliografia adequada, desmente vigorosamente a notícia e esclarece os pais que não cabe à escola ensinar a prática. A proposta, no fundo, é outra: «se tal actividade for realizada em público, os educadores devem interferir, de forma delicada, no sentido de ela ser feita na privacidade». No mundo do dr. Vilar, os nossos alunos entregam-se furiosamente ao vício, em plena sala de aula, perante o olhar do professor pasmado. Eu, por mim, apoio o dr. Vilar. O ideal, aliás, seria que as nossas crianças também deixassem de o fazer em praças e cafés. Mas um começo é um começo.

jpcoutinho@jpcoutinho.com

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