Público - 28 Mai 05

Métodos utilizados na ficção são parecidos com os da PJ

O responsável pelas Brigadas de Investigação e Averiguação de Desaparecidos da PJ aceitou comentar um episódio da série norte-americana Sem Rasto, protagonizada por uma equipa
do FBI. Nem tudo é ficção

A dada altura, o agente Jack Malone pede uma análise às impressões digitais deixadas numa peça de roupa da criança procurada. Os homens do FBI recorrem a um computador sofisticado para fazer a diligência. O sistema informático inicia então uma busca rápida para ver se alguma das impressões digitais, existentes na base de dados, coincide com a que foi recolhida - e que poderá corresponder ao autor do desaparecimento.
Francisco Santos Silva [responsável pelo Departamento Central de Informação Criminal e Polícia Técnica da PJ], sentado na secretária do seu gabinete na Gomes Freire, em Lisboa, analisa o episódio - o segundo da série vencedora de dois Emmys, actualmente a ser transmitida na 2:. O procedimento não o surpreende."Nós temos um sistema igual. Chama-se IAFIS - Automated Fingerprint Identification System. Posso mostrá-lo." Numa sala a poucos metros, no primeiro piso do edifício da PJ, a imagem que surgira no ecrã repete-se. Um elemento da polícia técnica olha demoradamente para duas impressões digitais que dividem a meio o monitor do seu computador. Procura semelhanças entre os traços de ambas; mas a amostra da impressão digital recolhida não está em bom estado. "A única diferença para a série Sem Rasto é que ali parece tudo muito fácil: os resultados surgem num segundo. Na realidade, podemos ter de ficar horas a contrapor duas impressões digitais para saber se elas pertencem à mesma pessoa", concretiza.

De novo a ficção. A história começa assim: um rapaz de 11 anos vai ao futebol com o pai, mas perde-se dele quando entra num comboio. De início pensa-se que a criança desapareceu inadvertidamente, mas depois percebe-se que se trata de uma fuga premeditada. O homem que faz de líder da Unidade de Desaparecidos do FBI entrevista o pai do rapaz, procurando despistar conflitos familiares. O diálogo é tenso.
"O nosso ponto de partida é sempre quem comunica o desaparecimento, e normalmente são os pais a fazê-lo. No caso das crianças acontece também que, na maioria das vezes, o desaparecimento resulta de problemas familiares. É sempre difícil fazer perguntas sobre isso. As pessoas têm dificuldade em admitir que há coisas que não correm bem na sua vida privada", explica Santos Silva, acentuando o "realismo" da série.

Segue-se a reconstituição de todos os passos dados pelo miúdo. No quartel do FBI são assinalados os locais onde o rapaz foi visto, ao longo do dia.
"É preciso refazer o quotidiano do desaparecido. Eles utilizaram um cronograma. Nós por vezes também recorremos a ele. Há inclusive um sistema mais sofisticado, chamado Analist Note Book, que faz várias conexões. Serve para nos ajudar a pensar e a sistematizar os elementos."

Os agentes da Unidade de Desaparecidos partem depois para a rua: voltam ao local do desaparecimento, passam a pente fino as estações do metro. Identificam os pedófilos da zona. Um outro elemento permanece nas instalações da unidade, recebendo dezenas de telefonemas de pessoas que, alertadas pela comunicação social, alegam ter avistado o desaparecido.
"A divulgação da cara dos desaparecidos na comunicação social pode ajudar a encontrá-los. Antigamente, fazia-se muito isso. Havia muita gente a telefonar, mas a maioria das pistas eram falsas. Agora, com a vulgarização do uso da Internet, essa divulgação é feita sobretudo no site da PJ."

A trama avança e complexifica-se. De pista em pista, os protagonistas de Sem Rasto chegam a um cibercafé, onde a criança procurada terá estado. No disco rígido do computador que utilizou descobre-se a gravação de um diálogo mantido com um adulto: o rapaz confessa-se triste por ter descoberto, há pouco tempo, que tinha sido adoptado; o interlocutor consegue fazê-lo acreditar que é ele o seu pai biológico - os dois marcam um encontro.
"A Internet é cada vez mais um instrumento de investigação. Muitas informações úteis podem estar guardadas num disco rígido", sublinha Francisco Santos Silva, recordando o caso da adolescente da Beira Alta encontrada em Lisboa. "Foi através da Internet que alguém lhe indicou uma pensão para ela se alojar. E foi devido a essa conversa que nós conseguimos encontrá-la", explica.

A polícia apercebe-se do golpe do homem que afirma ser pai do desaparecido e monta uma operação no local marcado, para capturar o pedófilo. O desenlace avista-se. No momento do encontro, contudo, o suspeito tenta fugir, acabando por ser perseguido e derrubado com um voo circense de um dos agentes.
Francisco Santos Silva reafirma a verosimilhança de Sem Rasto, apenas notando a inexistência, natural, de aspectos menos românticos da investigação policial. "Na série, por exemplo, eles não precisam de autorizações judiciais, da anuência do magistrado do Ministério Público, da ordem do juiz. É tudo feito muito rapidamente. E é tudo muito optimista", diz. Por outro lado, brinca com a actuação musculada da última cena. "Para aquela situação, foi uma atitude bastante operacional."

[anterior]