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Público - 2 Mar 04
Mais Vida, Mais Família Reclama 190 Mil Assinaturas
Por NUNO SÁ LOURENÇO
A associação Mais Vida, Mais Família que no passado fim-de-semana anunciou
o fim da recolha das assinaturas contra a despenalização do aborto,
afirmou ontem ter já atingido as 190.635 assinaturas com as cartas que
recebeu durante sábado, domingo e segunda.
Isabel Carmo Pedro fez ontem o balanço da iniciativa popular que será
entregue hoje ao presidente da Assembleia da República, Mota Amaral, tendo
destacado o facto de no espaço de um mês terem conseguido recolher um
número de assinaturas superior à petição oposta que insta a Assembelia da
República a avançar com o processo de referendo. "Conseguiu-se ultrapassar
largamente o número de assinaturas recolhidas pelo maior partido da
oposição parlamentar, em colaboração com outros partidos, ao longo de seis
meses e com uma enorme cobertura mediática, meios financeiros e toda uma
máquina partidária a trabalhar em uníssono". disse Isabel Carmo Pedro.
Depois de reclamar o sucesso da iniciativa, Isabel Carmo Pedro, concluiu
que tal provava como uma "falácia", a "ideia que o povo português mudou e,
portanto, se justifica um novo referendo". Para os promotores, a maioria
dos portugueses continua a considerar o "aborto como sendo intrinsecamente
um mal".
Teresa Aires de Campos afirma ser esta iniciativa a que representa
verdadeiramente o que o país pensa: "Há uma voz que raramente é ouvida,
mas que é a maioria".
Os organizadores reconheceram-se surpreendidos com a rapidez com que
atingiram o número de assinaturas. Embora afirmando não duvidar nunca que
seriam capazes de ultrapassar a iniciativa da esquerda, admitiram alguma
surpresa até pelo carácter "informal" da associação e do processo. "Foi
tudo um bocado boca a boca, mão na mão, não sabemos sequer quantas pessoas
fizeram a recolha de assinaturas", afirmou Isabel Carmo Pedro.
Pedro Líbano Monteiro acrescentou que a folha de assinaturas começou por
circular através dos "mailings normais" das associações de que os
promotores faziam parte, para além da folha que "podia ser impressa a
partir da internet". "A nossa arma secreta foi o 'e-mail'", resumiu Pedro
Líbano Monteiro.
Para além da iniciativa popular, a associação tem agendada uma
manifestação para amanhã, dia em que se debate o tema no Parlamento. A
concentração está prevista para a Basílica da Estrela, seguida da descida
em silêncio até à Rua de São Bento.
A recolha teve início a 24 de Janeiro e teve como data limite para a
entrega das folhas de assinaturas a passada sexta-feira. A associação Mais
Vida, Mais Família foi criada exclusivamente para esta iniciativa. Os
promotores desta plataforma são os mesmos que se uniram na altura do
referendo sobre o aborto em 1998. Isabel Carmo Pedro, Teresa Aires Campos
e Pedro Líbano Monteiro, estão ligados ao movimento "Juntos pela Vida".
Líbano Monteiro é ainda dirigente da Associação de Famílias Numerosas.
Os subscritores pedem à Assembleia da República e ao Governo que aprovem
"o reforço da protecção da vida no decorrer da actual revisão
constitucional", um "regime legal de protecção jurídica para a vida na sua
fase embrionária", "iniciativas legislativas de promoção da família" e
"medidas concretas de defesa da vida da mulher bem como do recém-nascido".
Entre os que assinaram contam-se personalidades como o economista João
Césardas Neves, o ex-dirigente do PSD, Eurico de Melo, e o treinador de
futebol, Fernando Santos.
Associação elogia PCP e critica BE
Alguns dos promotores da Mais Vida, Mais Família foram ontem recebidos
pelo chefe de gabinete do grupo parlamentar do PCP, Augusto Flores. A
associação tentou agendar encontros com todos os grupos parlamentares, não
tendo conseguido, no entanto, agendar com o Bloco de Esquerda e o PS.
Teresa Aires de Campos elogiou a "grande abertura" demonstrada pelo
comunista na reunião, classificando o encontro como "uma lição de
democracia". Esta última expressão foi uma provocação ao Bloco de Esquerda
que se recusou a receber a plataforma anti-referendo. Sobre o PCP, Teresa
Aires de Campos afirmou a esperança de "encontrar pontes" por acreditar
que, apesar de tudo, "a maioria das pessoas, em ambos os lados, só faz o
que faz por pensar que é o melhor para a mulher". [anterior] |