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Público - 2 Mar 04
A Questão do Aborto e a Cultura da Vida
Por FERNANDO A. MAYMONE MARTINS
Reacendeu-se com alguma estridência o debate público sobre a liberalização
do aborto. Ora, a agitação não favorece a reflexão e, a respeito da
questão de fundo, vale a pena recordar alguns pontos essenciais.
Desde logo há que notar a exclusão quase total do protagonista - a
criança. Protagonista porque é a sua vida que está em jogo e não pode
defender-se.
Não que queiramos menosprezar a mãe e a importância do seu lugar
insubstituível, nem o pai e demais intervenientes. Na realidade, todos
devem ser tidos em conta. Porém, as abordagens que destacam a importância
de apenas uma parte dos envolvidos são, inevitavelmente, incompletas e por
isso inadequadas.
A vida do bebé, com efeito, tem sido a grande ausente da querela mediática,
quando dela devia ser o centro. É chocante a tendência para a ignorar ou
minimizar quando essa vida é o único facto concreto que dá qualquer
sentido ao debate. Se não estivesse a vida de uma criança em jogo, nem
haveria sequer lugar a discussão. Retirando de cena o protagonista, é
lógico que se instale a confusão, perdendo-se o sentido de que, em cada
caso, se joga, na realidade, a vida de um ser humano.
O nó do problema reside, pois, em saber se o ordenamento jurídico que nos
rege deve ou não adoptar uma perspectiva de defesa e promoção da vida do
ser humano que está para nascer, tipificando como crime susceptível de ser
penalizado o acto de a eliminar na sua fase intra-uterina. Ora o respeito
e a defesa do primeiro direito da pessoa - o direito à vida - não pode
deixar de o exigir.
Acrescem inúmeras razões de ordem sociológica. A quebra da natalidade, que
deveria ser motivo para estimular as medidas de apoio aos nascimentos e à
estrutura familiar que constitui o seu normal enquadramento; a experiência
de outros países que contraria a ideia de que a liberalização conduz à
redução do número de abortos; o estudo sério das suas verdadeiras causas e
das motivações das mulheres que o praticam, as quais, perdurando muitas
vezes num quadro de liberalização, tendem a mantê-lo na clandestinidade; a
vulnerabilidade da mãe e da criança face à irresponsabilização do pai; a
divulgação de uma cultura de promiscuidade de par com proclamadas
preocupações com as gravidezes de adolescentes, etc.
O mais relevante não é, pois, a aplicação da pena legal e suas modalidades
que, aliás, se admite possam variar com as circunstâncias, mas o princípio
que rege a forma como nos organizamos em torno da defesa e promoção da
vida humana nesta fase do seu desenvolvimento. Não faz sentido a já
estafada pergunta se "queremos que as mulheres vão para a prisão". Na
realidade, não é o número destas que permite avaliar a eficácia da lei,
mas o número de vidas que ela permite salvar. Como em qualquer outra lei
que tipifica um crime, o objectivo não reside em encher as cadeias, mas em
criar constrangimentos à sua prática mesmo sabendo que a sua eliminação
completa não será provavelmente alcançada, como acontece em relação a
todos os males incluídos no comportamento humano.
Mais pesada do que a lei, é a dor e a pena que sofrem as mães que
atravessam este drama e que dele fazem o luto e arrastam a culpa. Nem uma
nem outra desaparecem por se lhes dar mais higiene, ou mesmo apoio
especializado, no momento de abortar, ou ainda por ser suprimida a
penalização legal. Até por isso a lei pode ser útil: não só por poupar
vidas, como por poupar a este sofrimento as mães que ela leva a desistirem
de dar um passo desta natureza.
Tudo reside, finalmente, em saber onde deve ser colocado o ênfase do
problema e de que modo: se só na mãe, só na criança, ou se em ambos e nos
que os envolvem; se só nas consequências ou se nas causas, como pensamos.
As organizações e pessoas que promovem a defesa da vida merecem uma
palavra especial. Por causa do seu empenhamento - sempre pacífico, entre
nós, e pautado pela maior urbanidade -, têm suportado toda a espécie de
acusações: hipocrisia, fundamentalismo, intolerância, radicalismo, etc.
Todavia, o que visivelmente os caracteriza é o desejo de evitar um mal
maior, que é a perda das vidas das crianças, sem pensar em promover as
penalizações, arvoradas em bandeira pela parte oposta. Todos sabem, embora
se ignore demasiadas vezes, como estas organizações, ligadas
frequentemente à Igreja Católica mas abrangendo pessoas de todas as
convicções, sempre mantiveram o coração aberto quer às chagas que estão na
origem deste drama, quer às que dele resultam - sociais às vezes, humanas
sempre. São elas que têm apoiado, geralmente na maior discrição, mulheres,
crianças e famílias em dificuldade.
O referendo de 1998, que se quer relançar até dar o resultado que uma
parte pretende, com o seu elevado grau de abstenção e a divisão dos que
votaram, deixou a nu o que as análises esqueceram: a perplexidade
generalizada e a desvalorização do significado e valor da vida na nossa
cultura. É este valor e significado que gostaríamos de ajudar a repor
entre nós e deveríamos começar por perguntar se o destino de uma vida
humana inocente é coisa sobre a qual se vote.
Compreender-se-á a este respeito uma palavra da nossa associação. Somos
médicos e temos por princípio lutar pela vida, prolongá-la, aliviar o
sofrimento e promover a saúde. A utilização de conhecimentos e recursos
médicos para eliminar a vida é uma instrumentalização da profissão contra
a sua própria natureza. Somos católicos e não esquecemos que a fé nos leva
a encarar o significado da vida e a sua dignidade com um valor redobrado.
Estes valores, porém, não são específicos de quem tem fé. Eles são
compartilhados por muitos e constituem um património colectivo sem
fronteiras religiosas. A afirmação clara da primazia destes valores é um
marco fundamental numa verdadeira "cultura da vida".
Presidente da Associação dos Médicos Católicos Portugueses [anterior] |